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Steven Appleby e acreditar em si mesmo

Uma das maiores dificuldades que uma pessoa pode enfrentar nessa vida é não acreditar em si mesmo. Eu já sofri (e ainda sofro um pouco) disso.

Como todo moleque que engolia gibis, eu sonhava ser desenhista e passava hora-e-horas em cima de uma mesa rabiscando e tentando imitar os traços dos artistas que eu admirava. Depois de alguns anos, percebi que não conseguiria fazer ilustrações “cheias de realismo” e músculos que eu consumia nos comics. Posso dizer que perdi muito tempo de minha vida almejando por algo que simplesmente não pertencia a minha pessoa. É até por isso que eu tenho poucos desenhos meus anteriores a faculdade de design: eu não me sentia bem com o que minha mão produzia e tinha vergonha de tornar isso público.

Demorei muito para perceber que eu tinha o meu estilo próprio de desenho, que aqueles traços doces que escorriam da minha lapiseira eram o tio .faso de verdade. Todo esse trauma teria sido menor se na minha época eu tivesse ouvido os conselhos do Steven Appleby.

O conheci através da Claudia Fajkarz do Superziper. Ele é um cartunista britânico com um traço muito marcante eque  produz que nem um louco. Em um vídeo (mais abaixo) ele dá pequenos conselhos (regras) de criação:



Basicamente o que ele diz (vou adaptar para não ser repetitivo, dando minha interpretação):

  1. Desenhos tortinhos/desajeitados/estranhos são legais – você não precisa ter um traço perfeito e hiper realista. Seu traço é como o seu idioma: quanto mais natural para você, melhor você saberá se expressar através dele;
  2. O que importa são as idéias – não adianta você saber se expressar através do desenho se você não tem nada a dizer. Palavras e traços soltos se perdem ao vento. Boas idéias marcam;
  3. Se solte – quando fazemos um rascunho não estamos pensando no desenho, mas sim como transmitiremos as idéias. Aquele rascunho é o seu melhor desenho em traço bruto. Por não ter a preocupação em ser perfeito, tendemos a nos soltar mais, nos preocupando com o mais importante: a idéia. Se ela pedir -p.e.- um desenho simples, por que complicar mais o traço?
  4. Não tenha regras – não se baseie apenas em regras e tutoriais de criação (como este), acredite em si mesmo e deixe suas idéias fluir. VOCÊ PRECISA se reconhecer naquilo que você desenha. É assim que você se torna único e faz com que as pessoas queiram fruir do seu traço. Afinal, se você não acredita em si mesmo, por que os outros o farão?

Um super abraço,

tio .faso

Pequeno dicionário de marcas

Há quase um ano atrás eu fiz um documento PDF de uma página que explicava a nomenclatura básica de uma marca. Nada muito técnico, apenas uma forma gráfica de exemplificar o que é um logotipo, um logograma e falar que logomarca não existe.

Como o arquivo original foi para no limbo do meu hd, atualizo republico aqui o Pequeno Dicionário de Marcas, acrescentando novos conceitos. Estes eu aprendi durante a faculdade, em aulas ou em conversas com professores. Espero que seja útil.


Logo – é um termo genérico e popular que serve para designar qualquer tipo de marca. Sua origem (provavelmente) vem da palavra logotipo. Por causa disso, o modo correto de se referenciar é no masculino (”o” logo) e não no feminino (”a” logo). (permalink)
Logotipo – é o termo que designa toda e qualquer marca nominativa (composta apenas por letras, gerando um nome), estilizadas ou não. Toda marca tem um logotipo. (permalink)

Exemplo: A palavra multicolorida Google é um exemplo de um logotipo.

Logograma – é um tipo especial de logotipo onde o símbolo é parte ingerante do nome. Sem ele ocorre a perda de significancia da marca. O logotipo do Canal Fox é um exemplo de logograma (seu símbolo mais fore é a letra “O” estilizada) (permalink)
Símbolo (ou sinal gráfico) – é a parte imagética de uma marca. Geralmente é a parte mais difundida e lembrada pelos fruidores/consumidores de uma marca. Nem toda marca tem um símbolo. (permalink)

Exemplo: A maçã da Apple Computers é um exemplo de um símbolo.

Símbolo misto – é a união do logotipo com o símbolo. “Símbolo misto” é um nome técnico que pode ser facilmente substituído por “logo” ou “marca”, pois ambas as formas são conhecidas pelos fruidores/consumidores. (permalink)
Fonograma – é a marca composta apenas por fonemas de determinada língua, quase como uma abreviação. Geralmente são marcas compostas apenas por logotipia. O logotipo do canal HBO é um exemplo de fonograma, pois é a abreviação de Home Box Office. (permalink)
Marca – marca não é um único objeto. Marca é um microuniverso criado ao redor de um conceito que se deseja compartilhar com fruidores/consumidores. Logotipo, símbolos, etc. são apenas partes desse mundo. Dentro da marca encontraremos valores, formas de comunicação e interação, manifestações físicas (loja, embalagens, sites, etc.), sensoriais (amoras, tato, marcas sonoras, etc.) e psicológicas (valor, afetividade, relacionamento entre marca e fans, etc.) A Apple é um dos melhores exemplos de como uma marca funciona como um microuniverso coeso. (permalink)
Fruidor – Pense o que significa ser um consumidor. Agora remova a relação comercial (o consumo) e você terá o fruidor. Fruidor é a pessoa que absorve e utiliza o imaginário, os valores, idéias e ideais de uma marca, sem necessariamente colocar a mão no bolso. (permalink)
Logomarca – algo que vem dividindo opiniões entre profissionais. Logomarca não existe ao mesmo tempo que ela existe. Realmente é errado usar esse neologismo, mas muitas pessoas leigas. Há muitas divergências sobre o termo e suas origens. Alguns dizem que foi criado para efeitos puramente comerciais outros apelam para o lado mais pessoal, como conflitos entre profissões. Para evitar mais confusão, siga essa simples regra: VOCÊ NÃO USARÁ A PALAVRA LOGOMARCA.(permalink)

Atualização: o verbete “logomarca” teve sua revisão ampliada, discutindo um pouco mais sobre o motivo do não uso do termo.

De tempo ao tempo

Vivemos em um mundo que a cada dia está mais acelerado; a cada passo que damos estamos tentando sempre chegar mais a frente – ir mais longe, mas como sonseguiremos isso se os nossos passos continuam com o mesmo tamanho?

Eu tenho quase 27 anos de idade; me vejo mais perto dos 30 do que eu poderia imaginar e esse fator (estar perto dos 30) me deixa muito agoniado, pois vejo que por mais que eu corra eu ainda não consegui sair muito do lugar. Quero ter sucesso financeiro, casar e ter filhos mas o meu hoje ainda não me permite nada disso – e como qualquer pessoa normal, fico frustado.

Ser empreendedor é complicado. Temos que nos auto-impulsionar – arrumar forças para continuar em direção a um destino completamente desconhecido. A frustação do parágrafo anterior, somada a pressão familiar e da sociedade, faz com que esse foguetinho comece a perder altitude e, durante a queda eminente, você se sente compelido a abandonar o navio e pular de pára-quedas para outra jornada, mais segura e “comum”. É nesses momentos que vale lembrar que o tempo está aí para isso: ser vivido um dia de cada vez.

Recentemente estava fruticando nos textos da caríssima ilustradora Lupe, quando me deparo com a seguinte frase:

“[...] O tempo médio que leva para um designer/ilustrador se estabelecer é de 12 anos (segundo um vídeo interessante que estava rolando no Twitter dia desses)! Eu estou completando 4 anos de profissão agora, e sei que ainda estou longe de estar onde gostaria!” – fonte

Ela disponibilizou o vídeo (mais abaixo) no qual a idéia que são necessários 12 anos para se firmar na sua opção de carreira. Assista e entenda o conceito (em inglês):



Nele descobrimos que até a Pixar levou esse mítico período de 12 anos para poder se estabelecer no mercado. Com isso, percebemos que a pressão por sucesso que nos auto infligimos é torpe, pois queira ou não leva-se tempo para conquistar os seus sonhos.

Fazendo uma rápida restrospectiva da minha vida profissional, percebo como isso é real. Eu comecei a bonecar dentro do meu quarto, sobre uma mesinha com menos de um metro de largura. A cada bonequinho feito, eu aprendia mais e mais e só depois de um ano eu consegui alugar uma sala comercial para poder trabalhar. Hoje o .marcamaria é um pouco maior do que o meu quarto. mas é algo que consegui e a qual me faz muito bem.

Para finalizar, por mais que o mundo te cobre sucesso ele não é instantâneo. Assim como qualquer prédio ele é construído do chão até o topo, e isso requer tempo. Tempo para crescer, para amadurecer e entender a sua real função no mundo, que é antes de tudo ser feliz com o que você faz.

Um super abraço,

tio .faso

A vaca roxa é a ousadia em sua melhor forma

Acabo de ler o livro A Vaca Roxa de Seth Godin. Li de uma vez só e foram 8h de entretenimentoaprenditivo da melhor qualidade. Basicamente o livro fala sobre uma palavrinha que muitos conhecem e poucos praticam: a ousadia. Vou misturar o meu raciocínio com a idéia base do livro.

Você já deve ter visto uma vaquinha pastando por aí. Não há nada demais nela; não vale a pena comentar com os outros. Mas no dia em que você der de cara com uma vaca roxa, pode ter certeza de uma coisa: aquilo irá te surpreender e você vai querer compartilhar esse achado com outros. No mundo dos negócios e das marcas, uma vaca roxa é exatamente isso: um produto ou serviço que surpreende e que automaticamente será compartilhado (lê-se “comentado”) por todos. Esse é o Santo Graal de qualquer empreendedor que se preze, mas como achar suas vacas roxas?

Saia da caixa e ouse

O primeiro passo para tentar criar sua vaca roxa é ousar. É preciso ter culhões e fazer algo que outros não fizeram.

Quando comecei o .marcamaria (que ainda não era uma bonecaria) recebi uma dica de uma loja de papelarias especiais estava precisando de um designer. Eu, com a maior cara lavada do mundo, pensei: “eu não posso trabalhar para eles, mas posso fazer com que eles queriam que minha empresa trabalhe com eles” – mas como eu poderia fazer isso?

Como a empresa era do ramo de papelaria, pensei em usar o papel como forma de fisgar o cliente. Para tal, fiz uma caixinha direcionada para a dona da loja, contendo mensagens e um micro envolope com o meu número de celular (clique nas imagens para ampliar):

Caixa - perspectiva Caixa - detalhe da tampa Caixa - detalhe da tampa Caixa aberta (visão geral) Base e o micro envelope
Escala do micro envelope Envelope aberto e micro carta com a mensagem

Resultado: ela me ligou e fechamos negócios! X) Perceba que nesse exemplo há outro ponto fundamenta da teorida da Vaca Roxa.

Direcione a sua mensagem/produto, não generalize

Como menceionei, eu fiz uma caixa justamente porque o meu alvo era uma empresa que vivia de papelaria e necessitava de alguém que soubesse trabalhar com isso. Se fosse outro tipo de negócio a mensagem não teria o mesmo impacto.

Quando você sai da sua zona de segurança e ousa, sua recompensa pode ser grande ao mesmo tempo que você também pode falhar. E isso é bom!  Comigo aconteceram as duas coisas.

A minha empresa se chama .marcamaria justamente porque eu queria trabalhar com design e marcas, mas como eu era inexperiente, não soube levar o negócio para frente. Mudei todo o foco da empresa para criação de personagens para licenciamente, mas não consegui transformar a Vovólima em um produto viável. Só depois de muito pestanejar e quase desistir, é que eu criei o mini-mi e consegui obter um resultado que me fizesse sonhar em frente.

Pense como você pode fazer surgir uma vaca roxa em seu negócio. Não tenha medo de ousar. Veja se sua marca está mais para as vaquinhas pastoreiras ou não. Se reinvente a cada queda.

Um super abraço,

tio .faso

Marca mãe, marca filha, prima e todos os outros parentes

Ao vivenciar o mundo das micro-marcas percebi que um conceito aparentemente trivial era completamente desconhecido: a hierarquia de marcas. Por mais que esse nome sugira uma forma vertical de criação e gestão de marcas, a hierarquia é uma ótima forma de descomplicar a vida de quem possui e gere sua própria marca.

Para quem vive da próprio trabalho, seja ele artesanato contemporâneo, ilustração, design ou mesmo uma pequena vendinha na esquina do bairro, gerir a própria marca parece ser uma uma tarefa dentre as milhares de tarefas que temos que realizar durante a nossa jornada de trabalho, mas é justamente aqui que esse aparente peso pode se tornar o pulo do gato na administração do seu negócio.

Quando iniciamos o nosso próprio negócio, tendemos a criar uma marca que represente todos os ideais e valores que esta marca simboliza para nós naquele momento. Ela parece ser perfeita mas… -sempre tem um “mas”-  conforme a marca vai crescendo temos a sensação que ela não se encaixa mais nos nossos planos ou descobrimos algo nela que não reflete mais o que acreditamos. Quando isso ocorre, o pequeno gestor toma a ação que lhe parece mais correta: mudar de marca.

Regra do Um Real e do Um milhão

Mudar de marca é algo que, a priori, tem um custo muito baixo, compensando e muito os benefícios que a nova marca irá proporcionar. É aqui que está o erro de quem possui a marca: não existe almoço grátis.

Vamos pensar de forma hipotética: quando você iniciou o seu negócio, você gastou menos de um real para criar sua marca. Você pegou uma folha de papel, desenhou, passou a limpo no computador e a mostrou ao mundo. As pessoas começaram a te conhecer por aquela marca, você vendeu o seus produtos, criou material de divulgação, etc. … agora pense que esse um real é, na verdade, um milhão que você gastou em tudo o que você fez após a criação da marca. Agora pense: é lógico querer mudar de marca dessa forma?

Quando o gestor da marca resolve mudá-la, ele ainda está com a mentalidade de quem gastou pouco na criação, mas ele esquece que ele investiu tempo, criou uma rede de relacionamentos, ganhou fruidores e consumidores – fazer com que todo os envolvidos nesse microverso entendam que a sua marca não é mais a mesma, vai exigir um investimento que muito de nós não possuímos e com um retorno que não é garantido.

Coloque-se no lugar de um possível consumidor: ele entra em contato com o seu primeiro produto -que foi feito há um bom tempo- e quanto vai tentar de achar, você simplesmente não existe mais. É uma venda que você acaba de perder, um consumidor que deixará de indicar para possíveis novos clientes e todo um ciclo prejudicial é iniciado e a vítima sempre será você.

Marca mãe e marca filha

Ok! Te convenci que mudar a marca com o bonde andando é uma péssima idéia, mas como fazer para adaptar a danada para os seus novos desejos? E qual é a solução milagrosa que você tanto falou? Vou me usar como exemplo.

Ao tentar criar um cartão de visita para a minha empresa, me vi em um dilema: ao colocar a imagem da minha caricatura na forma do meu principal produto, percebi que apesar de conseguir vender o meu peixe através do cartão, a marca da minha empresa estava diluída… quase sumindo perante ao produto. Cheguei a pensar em mudar o site corporativo simplesmente para acompanhar a linguagem do meu produto – foi aqui que o conceito de hierarquia de marcas se fez valer.

A minha empresa tem sua marca – chamemos de marca mãe- essa marca mãe já foi pequenina, mas cresceu e todo mundo tem um ideário dela. Ela cresceu, conheceu pessoas, fez novos relacionamentos e pum! teve uma linda filha. Essa marca filha é como sua mãe: também vai crescer, vai querer conhecer um monte de gente, mas como em todo relacionamento ocorre atritos, desgastes e desgostos, pois chegará uma hora em que as duas marcas não poderão ocupar o mesmo espaço.

No meu caso, percebi que a marca da minha empresa era a marca mãe que estava sendo eclipsada pelo marca do meu produto – não havia mais um limite claro onde terminava uma e começava outra. Isso acarreta em diversos problemas, mas fiquemos apenas no nosso lado do balcão: as vezes o seu produto tem uma imagem de marca tão única que não combina com a imagem da empresa. Pense: sua mãe faria uma tatuagem porque você fez? – o mesmo ocorre aqui.

Quando o seu negócio começa a amadurecer é preciso que você veja claramente que a sua empresa é uma entidade e seus produtos são outra coisa. Apesar do seu produto carregar todos os valores que a sua empresa prega, ele precisa de um local só dela para poder se manifestar, por isso é preciso criar mais uma marca – uma marca filha. “E onde criar mais uma marca vai me ajudar?” – você me indaga. Voltemos ao meu cartão de visita.

Ao perceber que eu estava colocando o meu produto frente a minha empresa, percebi que eu não precisava de um cartão somente com a imagem de um boneco. De um lado eu poderia ter o logo da minha empresa e do outro uma pequena caricatura minha, com os meus dados.

Separando os dois, eu pude criar um site todo minimalista para o meu produto, enquanto o site da empresa é mais orgânico e rabiscado. Meu produto trabalha bem com fundos brancos, enquanto a cor forte da empresa é um azul clarinho. Perceba que não há um conflito de interesses; cada um tem o seu lugar e sua própria forma de evoluir. É isso que a hierarquia de marcas possibilita: uma forma clara e coerente de tomar decisões.

Separar nem sempre é ruim. Às vezes é a melhor decisão.

Um super abraço,

tio .faso

Manual, mas com aroma industrial

Um dos meus valores internos e corporativos na bonecaria .marcamaria diz o seguinte:

Criar produtos manuais, mas com gostinho de industriais.

Isso quer dizer que mesmo que um boneco seja feito totalmente de forma artesanal, ele precisa ter a aparência (styling) de um produto produzido industrialmente. A principal idéia por trás disso é remover da mente do consumidor a imagem negativa que o produto artesanal tem -infelizmente- no Brasil.

Na faculdade realizamos uma pequena pesquisa com o público sobre qual que era a imagem (aquilo que ele percebe) de um produto artesanal; a maioria lembrou da rusticidade, qualidade inferior, acabamento pouco refinado e outros ideários que não me apetecem. Traduzindo em miúdos: boa parte do público consumidor pensa que o produto artesanal tem qualidade inferior ao industrial. Isso por ocorrer por diversos motivos mas é um fato de quem quer viver com artesanices precisa encarar de frente.

Esta pesquisa foi realizada justamente para poder aprimorar o valor final de cestas indígenas, que eram vendidas a poucos reais e davam um belo trabalho para serem feitas. Nesse caso, o que nós designers poderíamos fazer era criar todo um microverso de marca que catapultasse o valor do produto. Um desses passos é criar uma embalagem:

Cestaria Guarani pendurada no "seu ponto de venda" (clique na imagem para ampliar)

Cestaria Guarani pendurada no "seu ponto de venda"

Cestaria Guarani dentro de sua embalagem (protótipo)

Perceba que se você estivesse passando em uma estrada e visse a imagem da esquerda, o valor que você estaria disposto a pagar seria muito inferior a imagem da direita (nos testes o consumidor pagaria até 10 vezes mais pela cesta dentro da caixa). Esse tipo de percepção (de ter uma boa marca e uma embalagem bacana) é o que dá parte do “gostinho” industrial para o produto manufaturado. A outra parte é algo que nós artesãos contemporâneos já fazemos: aliar tecnologia com tradição.

Hoje na hora do almoço peguei o finalzinho do programa Mundo S/A no qual falava sobre uma empresa de porcelana bicentenária: a Real Vista Alegre. Na reportagem eles aliam em sua produção alta tecnologia com trabalho puramente artesanal. É como -no meu caso- ter um boneco que é bordado em máquina de costura (ainda não é eletrônica. Janome/Singer/Elgin/Brother aceitamos doações! -risos) e que possui uma caixa que é produzida em gráfica digital e ao mesmo tempo ter uma camisa pintada e costurada totalmente a mão (palmas para a Elisa Dantas, minha sócia e companheira de guerra corporativa):

Tecido estampado manualmente

Tecido estampado manualmente

Camisa pólo feita com o tecido estampado

Camisa pólo feita com o tecido estampado

Veja a matéria sobre a Real Vista Alegre e se suspreenda como dá para unir dois mundos que são, a priori, tão díspares:



Espero que a partir de agora você use a alta tecnologia e suas mãos para realizar os seus trabalhos manuais. Faça mais crafts com aroma de indústria de ponta! X)

Um super abraço,

tio .faso

A roda não é mais redonda

Uma das minhas atividades profissionais fora do mundo da bonecagem, é lecionar. Sim, sou um professor voluntário em um projeto de ensino de informática para a terceira idade. Pode parecer piegas, mas a cada nova aula, a cada sucesso e fracasso, eu aprendo muito com elas. A aula que acabo de dar é desses exemplos e que me levaram a escrever esse post.

Pelo menos há uns dois meses estou ensinando meus alunos a usarem a internet. Passei pelo feijão com arroz ao mundo das pesquisas online; algumas turmas aprenderam bem mas uma estava enfrentando problemas em “cortar o cordão umbilical” comigo.

Quando me refiro a “cortar o cordão umbilical” me refiro a tirar as rodinhas da bicicleta e deixar as pessoas guiarem sozinhas nesse novo ambiente. Esta turma simplesmente não conseguia fazer isso e certamente o problema era meu. Na aula de hoje tentei ir por um caminho novo.

No melhor estilo “João e Maria” fui o mais didático possível, transformando a aula em um grande tutorial passo-a-passo de como as coisas deveriam ser feitas, ao mesmo tempo que explicava conceitos e termos que eles já haviam
visto mas não se recordavam.

Como o nosso objeto de estudo de hoje foi navegar na internet e fazer uma pesquisa simples no Google, foi fácil falar coisas como “No Google, todos os links são grifados na cor azul, textos comuns são pretos e referências na cor verde” – é exatamente aqui que surgiu o meu medo e mote desse artigo.

Dentro um único site TEORICAMENTE o ambiente é controlado. Links são de cores X, textos são Y, etc., mas o que acorre após o link é totalmente imprevisível. É preciso lembrar que nós que mantemos blogs, twitters, facebooks e muito mais, estamos no topo da cadeia informativa – somos nativos desse mundo e para ele sabemos nos adaptar. Já esses meus alunos com seus 60, 70 e até 80 anos nasceram e foram criados em um mundo mais analógico, mais ligado aos átomos. Deixe-me ilustrar isso através de um
livro.

Um livro comum possui páginas que podem ser abertas para ter o seu conteúdo lido. Qualquer um que pegar um livro sabe como manuseá-lo, mas quando esse livro é transposto para o meio digital – será que devemos configurar as páginas através de links ou com rolagem auto-incrementadora? Será que as notas devem guiar para uma âncora no rodapé ou abrir um pequeno pop-up sobre
ela? E quais cores usar? Posso fazer o fundo branco ou preto; links com ou sem sublinhado e com cores fora do padrão azul-uniforme-de-colégio. Percebe que com mais opções acabamos criando pequenas barreiras que impedem que novas pessoas usufruam desse mundinho que vivemos?

Estou ciente que sempre terá alguém que falará que basta aprender o básico para poder “se virar”, mas como fazer isso se até o básico tem variantes? Só de navegadores instalados nesse computador existem três sabores, cada um usando termos próprios, arquiteturas visuais e códigos únicos.

Não sou a favor de uma total padronização da internet – ainda mais sabendo que isso é praticamente impossível, mas sei que irei me desdobrar para mostrar que por aqui a roda não é apenas redonda, que ela pode ser quadrada, triangular, hexagonal…

Abraços,

tio .faso

Manifesto XY das Manualidades

Tenho que confessar que nunca escrevi um manifesto e tão pouco tive coragem de ler algum. Vou me ater ao que sei, ou seja, o significado da palavra “manifestar” que, em suma, é tornar pública alguma idéia.

Eu sou um artesão que vive do meu ofício – a nobre arte de bonecar -, mas volta e meia vejo artigos, sites ou mesmo sou inquirido sob a temível letra A. “Como uma letra pode ser tão ruim assim?” – você deve se perguntar; tentarei explicar um pouco o que vejo ou passo.

Um certo dia fui ao armarinho comprar linhas para fazer um boneco. Depois de alguns questionamentos, a vendedora solta a temível letra: “foi isso que elA pediu?” – como assim elA? Será que um homem não pode entrar em uma loja de aviamentos sem ser a pedido de umA pessoa do sexo oposto? Mesmo explicando para a vendedora que aquelas linhas eram para mim, ela me olhou com um ar de admiração e descrença. Claro que não posso ser tão cego ao ponto de saber que eu sou a minoria-da-minoria-da-curva-do-gueto-no-bairro-do-interiror-dos-cafundós-do-Judas, mas isso não quer dizer que eu seja um alienígena no meio do meu ofício.

Sempre fico com uma sensação de exclusão quando leio um artigo que apenas citam as mulheres na nova onda da artesanice contemporânea – o famoso craft – afinal eu me sinto parte integrante desse acontecimento maravilhoso e ler que apenas as mulheres fazem parte de tal é o equivalente a ler que “homens trabalham em escritórios em empregos administrativos” – pura balela!

Bem, acredito que esta é a hora que eu deva expor meus desejos – o ápice desse manifesto. Se eu pudesse postular algo, diria o seguinte:

  1. Use termos genéricos – afinal pessoas de ambos os sexos podem praticar artesanices;
  2. Tanto homens como mulheres tem várias habilidades manuais – já vi ferreiras e marcineiras, assim como crocheteiros e costureiros;
  3. Na dúvida, não empregue gêneros – esqueça “homens” e “mulheres”. Ao invés de escrever “Costurar está na moda - Mulheres modernas aprendem, na Internet, a fazer trabalhos manuais” escreva p.e. “Costurar está na moda – Pessoas modernas e criativas aprendem, na Internet, a fazer trabalhos manuais”; e
  4. Nem todo artesão que costura é mulher – costuro melhor que minha mãe, mas volta e meia o pessoal me manda um e-mail com a temível letra A;
  5. Exclua a temível letra A do seu vocabulário – Seja genérico. Fale com todo mundo.

Assim como muitos de vocês se espantaram ao saber que existem ferreiras, muitas pessoas ainda se espantam ao saber que existem homens que fazem tricot, crochet, costura e tudo mais que as habilidades manuais permitem. Isso não deveria ocorrer, pois desde quando que o gênero é delimitador de habilidade?

Sinta-se a vontade de copiar e republicar esse pequeno manifesto (desde que citando a fonte).

Att.

Fábio Sousa – bonequeiro, artesão e costureiro

Um mundo digital mais humano

Antes de iniciar peço licença para os meus nove leitores, mas preciso relatar aqui algo pessoal. Calma! Prometo que irei transformar esse texto em uma divagação que você já estão acostumados. Aguarde e confie.

Pois bem, ao voltar dos Correios após despachar uma encomenda, dei um pulinho na loja de doces para comprar umas pastilhas, crente que seria o único doce que eu experimentaria hoje. Chegando aqui no minha empresa, o zelador com sua finesse espartana me dá um enorme pacote pardo. Peguei o elevador e como eu desconhecia o remetente, fiquei imaginando quem poderia ser. No alto dos meus devaneios pensei se não era nenhum desafeto meu (tenho algum?!), me enviando um pacote bomba que, no melhor estilo Diário Popular, iria provocar a notícia que um jovem empresário havia sido vítima de bomba caseira. Aliás, eu fui, mas de bombas calóricas e seus doendes.

Com o devaneio morando no limbo, abro o pacote. Dou de cara com uma papel de seda branco, escrito “pratofundo” – neste momento me lembrei que aquela caixona era do meu amigo secreto twitteiro-crafteiro, promovido pela @adrianaoliveira.

Descobri com uma enorme felicidade e surpresa, que meu caríssimo amigo secreto era o senhor Vitor Hugo, do blog Prato Fundo (se você estiver lendo isso na hora do almoço, não entre no link. Aquele seu pratinho de arroz com feijão se tornará a coisa mais sem graça do mundo). E eu como um bom chocólatra e biscoitoido, me deparei com isso:

Vovólima observa, antes do ataque, a chocolatagem que recebi (sentido horário): cookies, mini-zumbi de papel, tloberone, docinhos da confeitaria Rafaelo, receita de bolo quádruplo de chocolate, um Corrupiola, uma barra de chocolata amargo (sob a cartinha feita a mano) e, sobre tudo isso, uma pano de prato que nunca será usado!

Vovólima observa, antes do ataque, a chocolatagem que recebi (sentido horário): cookies, mini-zumbi de papel, tloberone, docinhos da confeitaria Rafaelo, receita de bolo quádruplo de chocolate, um Corrupiola, uma barra de chocolata amargo (sob a cartinha feita a mano) e, sobre tudo isso, uma pano de prato que nunca será usado!

Por causa do meu tempo escasso, conversei muito pouco com o Sr. Prato Fundo, mas ao receber tudo isso dele, somado com a carta que ele fez (temos um humor escrachado super parecido – veja abaixo) senti que ganhei um grande amigo lá na parte sul do mapa. Agora deixe-me divagar sobre o assunto.

Escrito a mão: Coloca uma etiqueta que tio .faso nem vai perceber! /o/ (clique para ampliar)

Escrito a mão: "Coloca uma etiqueta que tio .faso nem vai perceber! /o/ (clique para ampliar)

Se não fosse pela internet e suas maravilhosas ferramentas, acredito que eu nunca teria cruzado (eão cruzei, atomicamente falando) o caminho do Sr. Prato Fundo. Por causa dessa ferramenta maravilhosa, muitas pessoas se relacionam e criam vínculos, mesmo que seja apenas se comunicando através de textos.

A internet permitiu que pessoas se expressem livremente, que o Vitor mantenha um blog sobre o que ele sabe fazer de melhor, assim como me permitiu viver de fazer bonecos. O próprio movimento craft só é possível por causa desse meio de comunicação. Deixe-me falar um pouquinho a mais sobre ele.

Por mais que na web conseguimos comprar qualquer tipo de produto industrializado, os produtos da artesanice contemporânea possuem algo único, que o @doisespressos sintetizou bem:

O verdadeiro diferencial do produto feito a mão não está propriamente no produto, mas na relação que o criador tem com ele e em como essa relação é apresentada a quem compra. (fonte)

Ver esse presente do amigo secreto, com todo carinho, cuidado e dedicação (e suor) me fez ver em mãos o que é consumir e viver do craft: fazer aquilo que se ama e te deixa feliz.

Espero sempre conseguir passar isso no que eu produzo.

Um super abraço e muito obrigado Sr. Prato Fundo,

tio .faso

A cor dos seus olhos

Quando era pequeno o meu melhor amigo era um menino loiro de olhos azuis. Vivíamos brincando e confabulando juntos. Às vezes ele era o rei e em outras era o plebeu. Polícia, ladrão. Herói e vilão. Ou era eu ou ele, não importando a ordem dos papéis.

Quando nós sentíamos fome, não víamos a hora de ir para o recreio saborear os nossos lanches. Geralmente era suco e um sanduíche de presunto e queijo. Em momentos especiais aleatórios, nossas mães nos presenteavam com refrigerante do almoço de domingo.

Em um evento da escola, todos os alunos da minha sala precisavam se fantasiar de animais. Ele era uma girafa amarela; nosso amigo gordinho era um elefante cinza e eu era um macaco marrom. Eu gostava de ser o macaco, pois podia atormentar os dois, afinal eu era o único ali que poderia subir em árvores ou mesmo rolar no chão.

Um momento para um suspiro. Sabe, de tudo aquilo que eu poderia me lembrar de nossa infância, o que mais me marcou foi um singelo acontecimento. Pela primeira vez vi que éramos diferentes. Que o mundo dele deveria ser totalmente diferente do meu. Eu o indaguei:

- Como é que você vê o mundo? Você vê que esse portão é marrom, que essa árvore tem folhas verdes e que essa pedra é cinza?

- Sim – ele retrucou e indagou o motivo.

- Quem bom! Por um momento pensei que você via o mundo de outra cor, pois achei que o seu olho azul não via as mesmas cores que os meus olhos castanhos.

Um grande abraço,

tio .faso

tio .faso 3x4