Nem todo gringolês é ruim
Por .faso em 22 de outubro de 2009 às 9:31 (2 comentários)
Tenho que confessar que sou chato. Sim, sou muito chato. Não estou me referindo a aquele tipo de chatisse de quem acorda de manhã com a mão em riste, esperando para nocautear emocionalmente o primeiro que der “bom dia!”. Sou um chato verde-amarelo, um chato nacionalista.
Sou o tipo de pessoa que tem uma bandeira do Brasil pendurada sobre a porta da empresa. Adoro o meu país, seu povo (exceto pelas maçãs podres), sua características e cultura. Sou o tipo que adora apoiar a indústria nacional, comprando produtos feitos nessa terrinha (ainda sonho poder comprar um carro de uma marca 100% brasileira) e que não pensa duas vezes em apontar os defeitos que existem aqui; em suma: não sou nacionalista de copa¹ Mas uma das coisas que eu amo demais é a nossa doce língua portuguesa (pt_br para os íntimos).
Apesar de não lembrar o motivo de metade das regras do nosso idioma, eu acredito que faço bom uso dele. O português é uma língua tão rica que acho estranho usar termos estrangeiros ou neologismos. São tão cri-cri com o último caso que, se alguém gritar perto de mim “quem nunca disse ‘customização‘ que atire a primeira pedra!”, corre o sério risco de receber com um naco de paralelepípedo na testa. Mas o gordinho interior (vulgo “minha consciência”) diz: “Você é um designer!! – explica isso!!!”. É exatamente aqui que eu queria chegar.
O profissional de design, o designer é a versão inglês do “desenhista industrial”. Só que eu mesmo não sabia disso quando era mais novo e fui fazer uma faculdade de design. A carga informacional que essa palavrinha possui é muito forte, pois explica muita coisa apenas usando um termo. Nossos amigos latinos possuem um outro termo para definir design: diseño – e por mais que esse falso cognato aparente, diseño é diferente de dibujo (desenhar). A partir dessa raiz latina, poderíamos transformar o designer em desenhador, acabando com o problema do uso de palavras extrangeiras. Mas a realidade é diferente.
Há um bom tempo foi aberta uma discussão no fórum do Superziper, na qual foi questionado um termo simples que diferenciasse os artesãos contemporâneos (os crafters) dos artesãos “de raiz”. Esse primeiro termo -crafter- foi cunhado pelas meninas do Superziper, derivando do termo inglês craft, que resumidamente significa “trabalhos manuais”. É um neologismo que até agora eu evitava de escrever.
Ao dar aula de informática para as minhas alunas da 3ª idade, acabei percebendo que existe uma enorme diferença no uso da linguagem de quem teve sua educação antes e depois do computador, principalmente impulsionada pelo uso da internet. Nós que vivemos nesse mundinho digital, vivemos o mundo em um instante. Somos cidadãos da Babel virtual – para nós é natural incorporar neologismos ao nosso vocabulário. É aqui que eu percebi a importância de ser um crafter.
Ser crafter não é apenas realizar artesanices. É uma nova forma de pensar o trabalho, as relações com o mundo e consigo mesmo. Ser crafter é aliar a tradição com a modernidade – os bits com os bytes. Craftar é ir além mundo.
Vou deixar um pouco os meus preconceitos de lado, afinal nem todo gringolês é ruim se sua mente é aberta e irrestritiva.
Um super abraço,
tio .faso
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¹ Nacionalista de Copa: pessoas que passam o ano todo reclamando do Brasil, que sonham morar no exterior e ver o mundo em dólares/euros, mas que a cada quatro anos enche o peito de orgulho ao vestir a camiseta canarinho, dizendo-se patriota.

Comentado por Rodrigo van Kampen — 22 de outubro de 2009, 12:52
Eu sempre achei a língua maravilhosamente dinâmica. E embora a função da Academia seja sempre manter a coesão da língua, essa mistura e novos termos que surgem a cada conversa são mágicos!
Os neologismos em inglês só são ruins quando representam realmente uma dominação cultural. Por exemplo, se aqui falássemos ver um “movie” porque é diferente do cinema, que é brasileiro e ruim.
Acho que é o que acontece com o mercado de jogos eletrônicos, onde toda a indústria e mídia usa o termo “games”. Isso porque a criação de jogos no Brasil nunca foi grande coisa, apesar de estar crescendo recentemente.
Mas, com formação em comunicação social, afirmo categoricamente: a língua e a linguagem têm sim papel fundamental na forma como interpretamos o mundo à nossa volta. Você tem razão em ser chato.
Mas a partir do momento que o termo “craft” ou talvez “craftar” represente na sua cabeça a sua relação com a arte, não há mais nada de americano aí. Assim como não há mais nada de árabe em “alface”.
Abraços!
Pingback por Um mundo digital mais humano » tio .faso – o_bonequeiro.txt — 24 de novembro de 2009, 9:30
[...] blog sobre o que ele sabe fazer de melhor, assim como me permitiu viver de fazer bonecos. O próprio movimento craft só é possível por causa desse meio de comunicação. Deixe-me falar um pouquinho a mais sobre [...]