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Manifesto XY das Manualidades

Tenho que confessar que nunca escrevi um manifesto e tão pouco tive coragem de ler algum. Vou me ater ao que sei, ou seja, o significado da palavra “manifestar” que, em suma, é tornar pública alguma idéia.

Eu sou um artesão que vive do meu ofício – a nobre arte de bonecar -, mas volta e meia vejo artigos, sites ou mesmo sou inquirido sob a temível letra A. “Como uma letra pode ser tão ruim assim?” – você deve se perguntar; tentarei explicar um pouco o que vejo ou passo.

Um certo dia fui ao armarinho comprar linhas para fazer um boneco. Depois de alguns questionamentos, a vendedora solta a temível letra: “foi isso que elA pediu?” – como assim elA? Será que um homem não pode entrar em uma loja de aviamentos sem ser a pedido de umA pessoa do sexo oposto? Mesmo explicando para a vendedora que aquelas linhas eram para mim, ela me olhou com um ar de admiração e descrença. Claro que não posso ser tão cego ao ponto de saber que eu sou a minoria-da-minoria-da-curva-do-gueto-no-bairro-do-interiror-dos-cafundós-do-Judas, mas isso não quer dizer que eu seja um alienígena no meio do meu ofício.

Sempre fico com uma sensação de exclusão quando leio um artigo que apenas citam as mulheres na nova onda da artesanice contemporânea – o famoso craft – afinal eu me sinto parte integrante desse acontecimento maravilhoso e ler que apenas as mulheres fazem parte de tal é o equivalente a ler que “homens trabalham em escritórios em empregos administrativos” – pura balela!

Bem, acredito que esta é a hora que eu deva expor meus desejos – o ápice desse manifesto. Se eu pudesse postular algo, diria o seguinte:

  1. Use termos genéricos – afinal pessoas de ambos os sexos podem praticar artesanices;
  2. Tanto homens como mulheres tem várias habilidades manuais – já vi ferreiras e marcineiras, assim como crocheteiros e costureiros;
  3. Na dúvida, não empregue gêneros – esqueça “homens” e “mulheres”. Ao invés de escrever “Costurar está na moda - Mulheres modernas aprendem, na Internet, a fazer trabalhos manuais” escreva p.e. “Costurar está na moda – Pessoas modernas e criativas aprendem, na Internet, a fazer trabalhos manuais”; e
  4. Nem todo artesão que costura é mulher – costuro melhor que minha mãe, mas volta e meia o pessoal me manda um e-mail com a temível letra A;
  5. Exclua a temível letra A do seu vocabulário – Seja genérico. Fale com todo mundo.

Assim como muitos de vocês se espantaram ao saber que existem ferreiras, muitas pessoas ainda se espantam ao saber que existem homens que fazem tricot, crochet, costura e tudo mais que as habilidades manuais permitem. Isso não deveria ocorrer, pois desde quando que o gênero é delimitador de habilidade?

Sinta-se a vontade de copiar e republicar esse pequeno manifesto (desde que citando a fonte).

Att.

Fábio Sousa – bonequeiro, artesão e costureiro

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