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O logo da Copa 2014 e o nosso nacionalismo às avessas

Símbolo da marca da Copa 2014Já adianto que esse será um post de extremos, com oitos e oitentas. Alguns concordarão e outros odiarão completamente. Os comentários estão lá embaixo para se manifestarem (mas não exagerem, por favor!).

Antes de mais nada quero ser bem claro: odeio futebol.

Sim, eu ODEIO FUTEBOL com todas as letras garrafais que eu posso usar. Mas o principal motivo por quê eu odeio futebol é o estranho espírito patriótico que surge na época das copas. Há cada quatro anos milhões de brasileiros erguem suas flâmulas e bradam os gritos o seu orgulho de ter nascido nesse país. No resto do dia passamos o tempo cinza que nos resta sonhando com morar em países bem longe daqui. É de se estranhar que alguém que não gosta nem um pouco de futebol soltar letras sobre essa temática, mas o que venho comentar aqui é sobre a marca da Copa de 2014.

Pelos comentários que vi aqui e acolá, muitos dizem que acharam a marca da copa algo digno de pena. Sei que muitos desses comentários foram feitos para ir junto com a maré, mas não tenho vergonha de admitir em alto e bom tom que sim, eu gostei e muito do logo da Copa 2014!

Vendo através da óptica do meu diploma empoeirado de designer de marcas, há alguns detalhes que poderão gerar problemas, como aquela pequena união entre os dedos – mas falo isso sem ver o manual da marca e se há alguma boa solução para redução da marca. Outro item que poderia mudar é a cor do 2014, convertendo-a para o azul varonil da nossa bandeira, mas sei que o criador o fez dessa forma (assim espero) para criar um contraste e diminuir a uniformidade natural que todos nós temos ao ver as cores de nossa bandeira. É legal olhar para símbolo e dar de cara com um 2014 berrando por sua atenção e depois percorrer as formas orgânicas ali presentes.

Agora falando como leigo, eu percebo coisas que fazem desse símbolo algo bom, digno de “meus parabéns senhor desenhador!”:

  • Taça da Copa: se não fosse por esse detalhe, esse logo não teria o significado de “sou uma marca do maior evento de futebol”;
  • Mãos e braços: leio a aplicação das mãos e braços como demonstração de que aquele evento pertence a todos, tipo “união dos povos em prol de uma causa”. Estou ciente que isso é puramente planfetário, mas não podemos negar o valor dessa idéia; e
  • As cores da nossa bandeira: por mais que eu seja um completo ignorante em assuntos futibolísticos, sei que o verde e amarelo são as cores da taça da Copa são as mesmas da nossa bandeira. Atrelado a isso está o fato de sermos (infelizmente) respeitados pelo mundo todo por nosso futebol. Usar as cores da bandeira em forma da taça do mundo é o mesmo que dizer: “Sim! Somos os maiores e melhores jogadores de futebol dessa bolinha de gude azul”.

São basicamente esses motivos pelos quais eu gostei da marca da Copa de 2014. Isso não me fará gostar de futebol ou investir meu dinheiro em esporte, mas falar em coro que essa marca é horrível sem mais e nem menos, é como querer que a sua escalação para a Seleção é a melhor do que a do técnico, que ganha para realizar o seu trabalho (afinal, de médico, técnico, designer e louco todo mundo acha que tem um pouco).

Um super abraço,

tio .faso

Fonte da imagem: UOL

Dos pixels de Gutenberg

Desde que eu comecei a blogar (lá pelos idos de 2004) muitas coisas mudaram: vídeo sob demanda é uma realidade, notícias são relatadas no momento que acontecem, as pessoas se transformaram em centros de mídia e entretenimento, a comunicação passou a ter laços e-sociais; mas de todas as mudanças importantes que ocorreram, uma demorou (ou está demorando) a se transformar: os livros.

Ler livros não significa “virar páginas”

Eu adoro livros. Posso dizer que gastei mais dinheiro em leitura do que com roupas. Se quer me presentear e me deixar feliz, basta me dar um compêndio informativo em papel. Mas quando falamos de revolução na forma de ler -em transformar livros em e-books- muitos defensores se apegam a forma física do livro, ao invés de se ater ao que é importante: o conhecimento que ele proporciona.

Depois de lançamento do Kindle, tive o primeiro lampejo de como a forma de adquirir conhecimento através da leitura poderia ser silenciosamente revolucionado. Não me refiro a livros com vídeo, música ou coisas do tipo, mas sim em usar o potencial da tecnologia para melhorar a experiência da leitura.

Isso que hei de relatar já aconteceu com muitas pessoas, mas é um simples exemplo de como pode ser “o livro do futuro”: hoje ao ler uma determinada frase, nos deparamos com uma palavra desconhecida. Usualmente corremos atrás do dicionário (digital ou físico). Isso requer um tempo em que a leitura é interrompida. Mas se você pudesse marcar a palavra com um simples toque do dedo e o significado aparecesse? Em instantes você tiraria sua dúvida e continuaria sua leitura.

Um outro exemplo interessante é a deliciosa combinação de teclas CTRL+F (atalho comum para “buscas”). Muitas vezes eu me sei que determinado livro possui uma passagem que me interessa, mas não faço a menor idéia em qual página se encontra e um simples busca iria facilitar e muito a vida. Esses são simples exemplos de pequenas melhorias que um leitor eletrônico de livros pode proporcionar.

Indo além das páginas

Recentemente li um artigo em que o Ipad não revolucionará a forma de ler e muitos dos comentários reclamam que um livro feito para esse dispositivo acabaria virando um jogo, desviando o foco da leitura. Concordo em parte com eles, pois adicionar conteúdo multimídia pode mesmo desviar o foco da principal função de um livro: adquirir conhecimento através das letras. Mas como abusar da tecnologia sem descaracterizar o ato de ler em si?

Como aprendiz de escritor, eu adoraria poder libertar minhas idéias e deixar que o conteúdo fosse moldado de acordo com a experiência do leitor. Isso não é novo e já foi feito com os Livros-jogos, onde as tramas se desenrolavam de acordo com as escolhas do leitor. Mas ainda não vi nenhum exemplo atual implementando essa lógica. Tal forma de escrever pode permitir a que o ato individual de ler seja uma experiência personalizada e única. Em suma: por mais que duas pessoas comprem o mesmo livro, eles podem ter um desenvolvimento totalmente diferente e individual para cada um. Quem não gostaria de ter uma estória feita só para você?

Acredito que a partir de agora os livros começarão a mudar e a coexistir pacificamente com os seus antepassados físicos, tudo dependerá de nós aprendermos a escrever para um novo meio em que os limites estão na imaginação de cada um. A discussão agora não deverá ser o suporte em que os livros são exibidos, mas a forma como eles serão concebidos por nós que os criamos.

Um super abraço,

tio .faso

A arte de desanimar e se auto-animar

Acabo de ler um interessantíssimo relato sobre um Prof. de Português que hiperdesestimulava um jovem aluno. Além de dar zeros para o coitado disse: “Você jamais será lido por alguém” – e hoje esse “aluno” é colunista da Veja e tem seus textos indicados em vestibulares. Toda essa história me fez lembrar um causo meu muito parecido com este.

Lá pelos meus 10 anos de idade eu não era muito fã de educação artística.  Nunca me dava bem em pinturas com guache, lápis de cor, giz de cera e todos aqueles materiais que nos são empurrados goela a baixo. Eu era um aluno tão ruim que tal qual o autor do texto supracitado, ouvi da minha professora: “Você nunca servirá para qualquer trabalho artístico”.

Não me lembro a minha reação no momento (dizem que nós apagamos da mente aquilo que nos traumatiza), mas tenho certeza de que fiquei triste. Não pelo fato de ter sido esculachado, mas não saber dizer para um adulto que aquilo que ela ensinava não me dava tesão para dar o melhor de mim. Até hoje minha mãe fala que eu era um desastre no quesito artes e que não entende como eu mudei tanto, mas eu tenho uma teoria.

Nunca desista dos seus sonhos

O meu mantra está estampado no rodapé dos meus blogs e até na minha nota fiscal. “Nunca desista dos seus sonhos” foi uma palavra que eu sempre lia na ida e volta da faculdade, estampada em um muro nos fundilhos da mesma. Era isso que me fazia acordar todo dia às 4h30 para trabalhar e depois ir dormir perto das 1h da madrugada. Era a força que me fazia acreditar que tudo o que eu desejo é possível, basta ter um pouco de paciência e persistência.

Depois daquele episódio da professora de educação artística eu poderia ter desistido de unir o lápis ao papel, mas busquei em mim a vontade de fazer algo diferente. Foi nessa época que eu comecei a ler Histórias em Quadrinhos, com as quais vi que era possível fazer algo muito além do que eu via naquelas folhas fotocopiadas das aulas de arte.

Eu queria virar desenhista e contador de histórias e, para isso, passava de dez a quinze horas desenhando e criando em meu quarto. Eu não consegui virar desenhista de quadrinhos, mas estou conseguindo criar meu próprio mundo de contos e causos que a cada passinho vai se concretizando.

Hoje ao olhar para trás, eu não poderia saber que todas as HQs e livros que consumi, que os personagens, línguas e mundos que criei seriam a base do que faço hoje. Não dá para ter certeza como as nossas escolhas afetarão o nosso futuro. O importante é nunca desistir dos nossos sonhos, afinal serão sempre eles que nos farão dar o melhor de nós naquilo que realmente amamos.

Um super abraço,

tio .faso

Dica do texto “Nunca Permita Um Professor, Um Chefe, Um Amigo Lhe Desanimar”, por @tucahernandes

Steven Appleby e acreditar em si mesmo

Uma das maiores dificuldades que uma pessoa pode enfrentar nessa vida é não acreditar em si mesmo. Eu já sofri (e ainda sofro um pouco) disso.

Como todo moleque que engolia gibis, eu sonhava ser desenhista e passava hora-e-horas em cima de uma mesa rabiscando e tentando imitar os traços dos artistas que eu admirava. Depois de alguns anos, percebi que não conseguiria fazer ilustrações “cheias de realismo” e músculos que eu consumia nos comics. Posso dizer que perdi muito tempo de minha vida almejando por algo que simplesmente não pertencia a minha pessoa. É até por isso que eu tenho poucos desenhos meus anteriores a faculdade de design: eu não me sentia bem com o que minha mão produzia e tinha vergonha de tornar isso público.

Demorei muito para perceber que eu tinha o meu estilo próprio de desenho, que aqueles traços doces que escorriam da minha lapiseira eram o tio .faso de verdade. Todo esse trauma teria sido menor se na minha época eu tivesse ouvido os conselhos do Steven Appleby.

O conheci através da Claudia Fajkarz do Superziper. Ele é um cartunista britânico com um traço muito marcante eque  produz que nem um louco. Em um vídeo (mais abaixo) ele dá pequenos conselhos (regras) de criação:



Basicamente o que ele diz (vou adaptar para não ser repetitivo, dando minha interpretação):

  1. Desenhos tortinhos/desajeitados/estranhos são legais – você não precisa ter um traço perfeito e hiper realista. Seu traço é como o seu idioma: quanto mais natural para você, melhor você saberá se expressar através dele;
  2. O que importa são as idéias – não adianta você saber se expressar através do desenho se você não tem nada a dizer. Palavras e traços soltos se perdem ao vento. Boas idéias marcam;
  3. Se solte – quando fazemos um rascunho não estamos pensando no desenho, mas sim como transmitiremos as idéias. Aquele rascunho é o seu melhor desenho em traço bruto. Por não ter a preocupação em ser perfeito, tendemos a nos soltar mais, nos preocupando com o mais importante: a idéia. Se ela pedir -p.e.- um desenho simples, por que complicar mais o traço?
  4. Não tenha regras – não se baseie apenas em regras e tutoriais de criação (como este), acredite em si mesmo e deixe suas idéias fluir. VOCÊ PRECISA se reconhecer naquilo que você desenha. É assim que você se torna único e faz com que as pessoas queiram fruir do seu traço. Afinal, se você não acredita em si mesmo, por que os outros o farão?

Um super abraço,

tio .faso

De tempo ao tempo

Vivemos em um mundo que a cada dia está mais acelerado; a cada passo que damos estamos tentando sempre chegar mais a frente – ir mais longe, mas como sonseguiremos isso se os nossos passos continuam com o mesmo tamanho?

Eu tenho quase 27 anos de idade; me vejo mais perto dos 30 do que eu poderia imaginar e esse fator (estar perto dos 30) me deixa muito agoniado, pois vejo que por mais que eu corra eu ainda não consegui sair muito do lugar. Quero ter sucesso financeiro, casar e ter filhos mas o meu hoje ainda não me permite nada disso – e como qualquer pessoa normal, fico frustado.

Ser empreendedor é complicado. Temos que nos auto-impulsionar – arrumar forças para continuar em direção a um destino completamente desconhecido. A frustação do parágrafo anterior, somada a pressão familiar e da sociedade, faz com que esse foguetinho comece a perder altitude e, durante a queda eminente, você se sente compelido a abandonar o navio e pular de pára-quedas para outra jornada, mais segura e “comum”. É nesses momentos que vale lembrar que o tempo está aí para isso: ser vivido um dia de cada vez.

Recentemente estava fruticando nos textos da caríssima ilustradora Lupe, quando me deparo com a seguinte frase:

“[...] O tempo médio que leva para um designer/ilustrador se estabelecer é de 12 anos (segundo um vídeo interessante que estava rolando no Twitter dia desses)! Eu estou completando 4 anos de profissão agora, e sei que ainda estou longe de estar onde gostaria!” – fonte

Ela disponibilizou o vídeo (mais abaixo) no qual a idéia que são necessários 12 anos para se firmar na sua opção de carreira. Assista e entenda o conceito (em inglês):



Nele descobrimos que até a Pixar levou esse mítico período de 12 anos para poder se estabelecer no mercado. Com isso, percebemos que a pressão por sucesso que nos auto infligimos é torpe, pois queira ou não leva-se tempo para conquistar os seus sonhos.

Fazendo uma rápida restrospectiva da minha vida profissional, percebo como isso é real. Eu comecei a bonecar dentro do meu quarto, sobre uma mesinha com menos de um metro de largura. A cada bonequinho feito, eu aprendia mais e mais e só depois de um ano eu consegui alugar uma sala comercial para poder trabalhar. Hoje o .marcamaria é um pouco maior do que o meu quarto. mas é algo que consegui e a qual me faz muito bem.

Para finalizar, por mais que o mundo te cobre sucesso ele não é instantâneo. Assim como qualquer prédio ele é construído do chão até o topo, e isso requer tempo. Tempo para crescer, para amadurecer e entender a sua real função no mundo, que é antes de tudo ser feliz com o que você faz.

Um super abraço,

tio .faso

A vaca roxa é a ousadia em sua melhor forma

Acabo de ler o livro A Vaca Roxa de Seth Godin. Li de uma vez só e foram 8h de entretenimentoaprenditivo da melhor qualidade. Basicamente o livro fala sobre uma palavrinha que muitos conhecem e poucos praticam: a ousadia. Vou misturar o meu raciocínio com a idéia base do livro.

Você já deve ter visto uma vaquinha pastando por aí. Não há nada demais nela; não vale a pena comentar com os outros. Mas no dia em que você der de cara com uma vaca roxa, pode ter certeza de uma coisa: aquilo irá te surpreender e você vai querer compartilhar esse achado com outros. No mundo dos negócios e das marcas, uma vaca roxa é exatamente isso: um produto ou serviço que surpreende e que automaticamente será compartilhado (lê-se “comentado”) por todos. Esse é o Santo Graal de qualquer empreendedor que se preze, mas como achar suas vacas roxas?

Saia da caixa e ouse

O primeiro passo para tentar criar sua vaca roxa é ousar. É preciso ter culhões e fazer algo que outros não fizeram.

Quando comecei o .marcamaria (que ainda não era uma bonecaria) recebi uma dica de uma loja de papelarias especiais estava precisando de um designer. Eu, com a maior cara lavada do mundo, pensei: “eu não posso trabalhar para eles, mas posso fazer com que eles queriam que minha empresa trabalhe com eles” – mas como eu poderia fazer isso?

Como a empresa era do ramo de papelaria, pensei em usar o papel como forma de fisgar o cliente. Para tal, fiz uma caixinha direcionada para a dona da loja, contendo mensagens e um micro envolope com o meu número de celular (clique nas imagens para ampliar):

Caixa - perspectiva Caixa - detalhe da tampa Caixa - detalhe da tampa Caixa aberta (visão geral) Base e o micro envelope
Escala do micro envelope Envelope aberto e micro carta com a mensagem

Resultado: ela me ligou e fechamos negócios! X) Perceba que nesse exemplo há outro ponto fundamenta da teorida da Vaca Roxa.

Direcione a sua mensagem/produto, não generalize

Como menceionei, eu fiz uma caixa justamente porque o meu alvo era uma empresa que vivia de papelaria e necessitava de alguém que soubesse trabalhar com isso. Se fosse outro tipo de negócio a mensagem não teria o mesmo impacto.

Quando você sai da sua zona de segurança e ousa, sua recompensa pode ser grande ao mesmo tempo que você também pode falhar. E isso é bom!  Comigo aconteceram as duas coisas.

A minha empresa se chama .marcamaria justamente porque eu queria trabalhar com design e marcas, mas como eu era inexperiente, não soube levar o negócio para frente. Mudei todo o foco da empresa para criação de personagens para licenciamente, mas não consegui transformar a Vovólima em um produto viável. Só depois de muito pestanejar e quase desistir, é que eu criei o mini-mi e consegui obter um resultado que me fizesse sonhar em frente.

Pense como você pode fazer surgir uma vaca roxa em seu negócio. Não tenha medo de ousar. Veja se sua marca está mais para as vaquinhas pastoreiras ou não. Se reinvente a cada queda.

Um super abraço,

tio .faso

Manual, mas com aroma industrial

Um dos meus valores internos e corporativos na bonecaria .marcamaria diz o seguinte:

Criar produtos manuais, mas com gostinho de industriais.

Isso quer dizer que mesmo que um boneco seja feito totalmente de forma artesanal, ele precisa ter a aparência (styling) de um produto produzido industrialmente. A principal idéia por trás disso é remover da mente do consumidor a imagem negativa que o produto artesanal tem -infelizmente- no Brasil.

Na faculdade realizamos uma pequena pesquisa com o público sobre qual que era a imagem (aquilo que ele percebe) de um produto artesanal; a maioria lembrou da rusticidade, qualidade inferior, acabamento pouco refinado e outros ideários que não me apetecem. Traduzindo em miúdos: boa parte do público consumidor pensa que o produto artesanal tem qualidade inferior ao industrial. Isso por ocorrer por diversos motivos mas é um fato de quem quer viver com artesanices precisa encarar de frente.

Esta pesquisa foi realizada justamente para poder aprimorar o valor final de cestas indígenas, que eram vendidas a poucos reais e davam um belo trabalho para serem feitas. Nesse caso, o que nós designers poderíamos fazer era criar todo um microverso de marca que catapultasse o valor do produto. Um desses passos é criar uma embalagem:

Cestaria Guarani pendurada no "seu ponto de venda" (clique na imagem para ampliar)

Cestaria Guarani pendurada no "seu ponto de venda"

Cestaria Guarani dentro de sua embalagem (protótipo)

Perceba que se você estivesse passando em uma estrada e visse a imagem da esquerda, o valor que você estaria disposto a pagar seria muito inferior a imagem da direita (nos testes o consumidor pagaria até 10 vezes mais pela cesta dentro da caixa). Esse tipo de percepção (de ter uma boa marca e uma embalagem bacana) é o que dá parte do “gostinho” industrial para o produto manufaturado. A outra parte é algo que nós artesãos contemporâneos já fazemos: aliar tecnologia com tradição.

Hoje na hora do almoço peguei o finalzinho do programa Mundo S/A no qual falava sobre uma empresa de porcelana bicentenária: a Real Vista Alegre. Na reportagem eles aliam em sua produção alta tecnologia com trabalho puramente artesanal. É como -no meu caso- ter um boneco que é bordado em máquina de costura (ainda não é eletrônica. Janome/Singer/Elgin/Brother aceitamos doações! -risos) e que possui uma caixa que é produzida em gráfica digital e ao mesmo tempo ter uma camisa pintada e costurada totalmente a mão (palmas para a Elisa Dantas, minha sócia e companheira de guerra corporativa):

Tecido estampado manualmente

Tecido estampado manualmente

Camisa pólo feita com o tecido estampado

Camisa pólo feita com o tecido estampado

Veja a matéria sobre a Real Vista Alegre e se suspreenda como dá para unir dois mundos que são, a priori, tão díspares:



Espero que a partir de agora você use a alta tecnologia e suas mãos para realizar os seus trabalhos manuais. Faça mais crafts com aroma de indústria de ponta! X)

Um super abraço,

tio .faso

A roda não é mais redonda

Uma das minhas atividades profissionais fora do mundo da bonecagem, é lecionar. Sim, sou um professor voluntário em um projeto de ensino de informática para a terceira idade. Pode parecer piegas, mas a cada nova aula, a cada sucesso e fracasso, eu aprendo muito com elas. A aula que acabo de dar é desses exemplos e que me levaram a escrever esse post.

Pelo menos há uns dois meses estou ensinando meus alunos a usarem a internet. Passei pelo feijão com arroz ao mundo das pesquisas online; algumas turmas aprenderam bem mas uma estava enfrentando problemas em “cortar o cordão umbilical” comigo.

Quando me refiro a “cortar o cordão umbilical” me refiro a tirar as rodinhas da bicicleta e deixar as pessoas guiarem sozinhas nesse novo ambiente. Esta turma simplesmente não conseguia fazer isso e certamente o problema era meu. Na aula de hoje tentei ir por um caminho novo.

No melhor estilo “João e Maria” fui o mais didático possível, transformando a aula em um grande tutorial passo-a-passo de como as coisas deveriam ser feitas, ao mesmo tempo que explicava conceitos e termos que eles já haviam
visto mas não se recordavam.

Como o nosso objeto de estudo de hoje foi navegar na internet e fazer uma pesquisa simples no Google, foi fácil falar coisas como “No Google, todos os links são grifados na cor azul, textos comuns são pretos e referências na cor verde” – é exatamente aqui que surgiu o meu medo e mote desse artigo.

Dentro um único site TEORICAMENTE o ambiente é controlado. Links são de cores X, textos são Y, etc., mas o que acorre após o link é totalmente imprevisível. É preciso lembrar que nós que mantemos blogs, twitters, facebooks e muito mais, estamos no topo da cadeia informativa – somos nativos desse mundo e para ele sabemos nos adaptar. Já esses meus alunos com seus 60, 70 e até 80 anos nasceram e foram criados em um mundo mais analógico, mais ligado aos átomos. Deixe-me ilustrar isso através de um
livro.

Um livro comum possui páginas que podem ser abertas para ter o seu conteúdo lido. Qualquer um que pegar um livro sabe como manuseá-lo, mas quando esse livro é transposto para o meio digital – será que devemos configurar as páginas através de links ou com rolagem auto-incrementadora? Será que as notas devem guiar para uma âncora no rodapé ou abrir um pequeno pop-up sobre
ela? E quais cores usar? Posso fazer o fundo branco ou preto; links com ou sem sublinhado e com cores fora do padrão azul-uniforme-de-colégio. Percebe que com mais opções acabamos criando pequenas barreiras que impedem que novas pessoas usufruam desse mundinho que vivemos?

Estou ciente que sempre terá alguém que falará que basta aprender o básico para poder “se virar”, mas como fazer isso se até o básico tem variantes? Só de navegadores instalados nesse computador existem três sabores, cada um usando termos próprios, arquiteturas visuais e códigos únicos.

Não sou a favor de uma total padronização da internet – ainda mais sabendo que isso é praticamente impossível, mas sei que irei me desdobrar para mostrar que por aqui a roda não é apenas redonda, que ela pode ser quadrada, triangular, hexagonal…

Abraços,

tio .faso

Um mundo digital mais humano

Antes de iniciar peço licença para os meus nove leitores, mas preciso relatar aqui algo pessoal. Calma! Prometo que irei transformar esse texto em uma divagação que você já estão acostumados. Aguarde e confie.

Pois bem, ao voltar dos Correios após despachar uma encomenda, dei um pulinho na loja de doces para comprar umas pastilhas, crente que seria o único doce que eu experimentaria hoje. Chegando aqui no minha empresa, o zelador com sua finesse espartana me dá um enorme pacote pardo. Peguei o elevador e como eu desconhecia o remetente, fiquei imaginando quem poderia ser. No alto dos meus devaneios pensei se não era nenhum desafeto meu (tenho algum?!), me enviando um pacote bomba que, no melhor estilo Diário Popular, iria provocar a notícia que um jovem empresário havia sido vítima de bomba caseira. Aliás, eu fui, mas de bombas calóricas e seus doendes.

Com o devaneio morando no limbo, abro o pacote. Dou de cara com uma papel de seda branco, escrito “pratofundo” – neste momento me lembrei que aquela caixona era do meu amigo secreto twitteiro-crafteiro, promovido pela @adrianaoliveira.

Descobri com uma enorme felicidade e surpresa, que meu caríssimo amigo secreto era o senhor Vitor Hugo, do blog Prato Fundo (se você estiver lendo isso na hora do almoço, não entre no link. Aquele seu pratinho de arroz com feijão se tornará a coisa mais sem graça do mundo). E eu como um bom chocólatra e biscoitoido, me deparei com isso:

Vovólima observa, antes do ataque, a chocolatagem que recebi (sentido horário): cookies, mini-zumbi de papel, tloberone, docinhos da confeitaria Rafaelo, receita de bolo quádruplo de chocolate, um Corrupiola, uma barra de chocolata amargo (sob a cartinha feita a mano) e, sobre tudo isso, uma pano de prato que nunca será usado!

Vovólima observa, antes do ataque, a chocolatagem que recebi (sentido horário): cookies, mini-zumbi de papel, tloberone, docinhos da confeitaria Rafaelo, receita de bolo quádruplo de chocolate, um Corrupiola, uma barra de chocolata amargo (sob a cartinha feita a mano) e, sobre tudo isso, uma pano de prato que nunca será usado!

Por causa do meu tempo escasso, conversei muito pouco com o Sr. Prato Fundo, mas ao receber tudo isso dele, somado com a carta que ele fez (temos um humor escrachado super parecido – veja abaixo) senti que ganhei um grande amigo lá na parte sul do mapa. Agora deixe-me divagar sobre o assunto.

Escrito a mão: Coloca uma etiqueta que tio .faso nem vai perceber! /o/ (clique para ampliar)

Escrito a mão: "Coloca uma etiqueta que tio .faso nem vai perceber! /o/ (clique para ampliar)

Se não fosse pela internet e suas maravilhosas ferramentas, acredito que eu nunca teria cruzado (eão cruzei, atomicamente falando) o caminho do Sr. Prato Fundo. Por causa dessa ferramenta maravilhosa, muitas pessoas se relacionam e criam vínculos, mesmo que seja apenas se comunicando através de textos.

A internet permitiu que pessoas se expressem livremente, que o Vitor mantenha um blog sobre o que ele sabe fazer de melhor, assim como me permitiu viver de fazer bonecos. O próprio movimento craft só é possível por causa desse meio de comunicação. Deixe-me falar um pouquinho a mais sobre ele.

Por mais que na web conseguimos comprar qualquer tipo de produto industrializado, os produtos da artesanice contemporânea possuem algo único, que o @doisespressos sintetizou bem:

O verdadeiro diferencial do produto feito a mão não está propriamente no produto, mas na relação que o criador tem com ele e em como essa relação é apresentada a quem compra. (fonte)

Ver esse presente do amigo secreto, com todo carinho, cuidado e dedicação (e suor) me fez ver em mãos o que é consumir e viver do craft: fazer aquilo que se ama e te deixa feliz.

Espero sempre conseguir passar isso no que eu produzo.

Um super abraço e muito obrigado Sr. Prato Fundo,

tio .faso

A cor dos seus olhos

Quando era pequeno o meu melhor amigo era um menino loiro de olhos azuis. Vivíamos brincando e confabulando juntos. Às vezes ele era o rei e em outras era o plebeu. Polícia, ladrão. Herói e vilão. Ou era eu ou ele, não importando a ordem dos papéis.

Quando nós sentíamos fome, não víamos a hora de ir para o recreio saborear os nossos lanches. Geralmente era suco e um sanduíche de presunto e queijo. Em momentos especiais aleatórios, nossas mães nos presenteavam com refrigerante do almoço de domingo.

Em um evento da escola, todos os alunos da minha sala precisavam se fantasiar de animais. Ele era uma girafa amarela; nosso amigo gordinho era um elefante cinza e eu era um macaco marrom. Eu gostava de ser o macaco, pois podia atormentar os dois, afinal eu era o único ali que poderia subir em árvores ou mesmo rolar no chão.

Um momento para um suspiro. Sabe, de tudo aquilo que eu poderia me lembrar de nossa infância, o que mais me marcou foi um singelo acontecimento. Pela primeira vez vi que éramos diferentes. Que o mundo dele deveria ser totalmente diferente do meu. Eu o indaguei:

- Como é que você vê o mundo? Você vê que esse portão é marrom, que essa árvore tem folhas verdes e que essa pedra é cinza?

- Sim – ele retrucou e indagou o motivo.

- Quem bom! Por um momento pensei que você via o mundo de outra cor, pois achei que o seu olho azul não via as mesmas cores que os meus olhos castanhos.

Um grande abraço,

tio .faso

tio .faso 3x4