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A roda não é mais redonda

Uma das minhas atividades profissionais fora do mundo da bonecagem, é lecionar. Sim, sou um professor voluntário em um projeto de ensino de informática para a terceira idade. Pode parecer piegas, mas a cada nova aula, a cada sucesso e fracasso, eu aprendo muito com elas. A aula que acabo de dar é desses exemplos e que me levaram a escrever esse post.

Pelo menos há uns dois meses estou ensinando meus alunos a usarem a internet. Passei pelo feijão com arroz ao mundo das pesquisas online; algumas turmas aprenderam bem mas uma estava enfrentando problemas em “cortar o cordão umbilical” comigo.

Quando me refiro a “cortar o cordão umbilical” me refiro a tirar as rodinhas da bicicleta e deixar as pessoas guiarem sozinhas nesse novo ambiente. Esta turma simplesmente não conseguia fazer isso e certamente o problema era meu. Na aula de hoje tentei ir por um caminho novo.

No melhor estilo “João e Maria” fui o mais didático possível, transformando a aula em um grande tutorial passo-a-passo de como as coisas deveriam ser feitas, ao mesmo tempo que explicava conceitos e termos que eles já haviam
visto mas não se recordavam.

Como o nosso objeto de estudo de hoje foi navegar na internet e fazer uma pesquisa simples no Google, foi fácil falar coisas como “No Google, todos os links são grifados na cor azul, textos comuns são pretos e referências na cor verde” – é exatamente aqui que surgiu o meu medo e mote desse artigo.

Dentro um único site TEORICAMENTE o ambiente é controlado. Links são de cores X, textos são Y, etc., mas o que acorre após o link é totalmente imprevisível. É preciso lembrar que nós que mantemos blogs, twitters, facebooks e muito mais, estamos no topo da cadeia informativa – somos nativos desse mundo e para ele sabemos nos adaptar. Já esses meus alunos com seus 60, 70 e até 80 anos nasceram e foram criados em um mundo mais analógico, mais ligado aos átomos. Deixe-me ilustrar isso através de um
livro.

Um livro comum possui páginas que podem ser abertas para ter o seu conteúdo lido. Qualquer um que pegar um livro sabe como manuseá-lo, mas quando esse livro é transposto para o meio digital – será que devemos configurar as páginas através de links ou com rolagem auto-incrementadora? Será que as notas devem guiar para uma âncora no rodapé ou abrir um pequeno pop-up sobre
ela? E quais cores usar? Posso fazer o fundo branco ou preto; links com ou sem sublinhado e com cores fora do padrão azul-uniforme-de-colégio. Percebe que com mais opções acabamos criando pequenas barreiras que impedem que novas pessoas usufruam desse mundinho que vivemos?

Estou ciente que sempre terá alguém que falará que basta aprender o básico para poder “se virar”, mas como fazer isso se até o básico tem variantes? Só de navegadores instalados nesse computador existem três sabores, cada um usando termos próprios, arquiteturas visuais e códigos únicos.

Não sou a favor de uma total padronização da internet – ainda mais sabendo que isso é praticamente impossível, mas sei que irei me desdobrar para mostrar que por aqui a roda não é apenas redonda, que ela pode ser quadrada, triangular, hexagonal…

Abraços,

tio .faso

Manifesto XY das Manualidades

Tenho que confessar que nunca escrevi um manifesto e tão pouco tive coragem de ler algum. Vou me ater ao que sei, ou seja, o significado da palavra “manifestar” que, em suma, é tornar pública alguma idéia.

Eu sou um artesão que vive do meu ofício – a nobre arte de bonecar -, mas volta e meia vejo artigos, sites ou mesmo sou inquirido sob a temível letra A. “Como uma letra pode ser tão ruim assim?” – você deve se perguntar; tentarei explicar um pouco o que vejo ou passo.

Um certo dia fui ao armarinho comprar linhas para fazer um boneco. Depois de alguns questionamentos, a vendedora solta a temível letra: “foi isso que elA pediu?” – como assim elA? Será que um homem não pode entrar em uma loja de aviamentos sem ser a pedido de umA pessoa do sexo oposto? Mesmo explicando para a vendedora que aquelas linhas eram para mim, ela me olhou com um ar de admiração e descrença. Claro que não posso ser tão cego ao ponto de saber que eu sou a minoria-da-minoria-da-curva-do-gueto-no-bairro-do-interiror-dos-cafundós-do-Judas, mas isso não quer dizer que eu seja um alienígena no meio do meu ofício.

Sempre fico com uma sensação de exclusão quando leio um artigo que apenas citam as mulheres na nova onda da artesanice contemporânea – o famoso craft – afinal eu me sinto parte integrante desse acontecimento maravilhoso e ler que apenas as mulheres fazem parte de tal é o equivalente a ler que “homens trabalham em escritórios em empregos administrativos” – pura balela!

Bem, acredito que esta é a hora que eu deva expor meus desejos – o ápice desse manifesto. Se eu pudesse postular algo, diria o seguinte:

  1. Use termos genéricos – afinal pessoas de ambos os sexos podem praticar artesanices;
  2. Tanto homens como mulheres tem várias habilidades manuais – já vi ferreiras e marcineiras, assim como crocheteiros e costureiros;
  3. Na dúvida, não empregue gêneros – esqueça “homens” e “mulheres”. Ao invés de escrever “Costurar está na moda - Mulheres modernas aprendem, na Internet, a fazer trabalhos manuais” escreva p.e. “Costurar está na moda – Pessoas modernas e criativas aprendem, na Internet, a fazer trabalhos manuais”; e
  4. Nem todo artesão que costura é mulher – costuro melhor que minha mãe, mas volta e meia o pessoal me manda um e-mail com a temível letra A;
  5. Exclua a temível letra A do seu vocabulário – Seja genérico. Fale com todo mundo.

Assim como muitos de vocês se espantaram ao saber que existem ferreiras, muitas pessoas ainda se espantam ao saber que existem homens que fazem tricot, crochet, costura e tudo mais que as habilidades manuais permitem. Isso não deveria ocorrer, pois desde quando que o gênero é delimitador de habilidade?

Sinta-se a vontade de copiar e republicar esse pequeno manifesto (desde que citando a fonte).

Att.

Fábio Sousa – bonequeiro, artesão e costureiro

Um mundo digital mais humano

Antes de iniciar peço licença para os meus nove leitores, mas preciso relatar aqui algo pessoal. Calma! Prometo que irei transformar esse texto em uma divagação que você já estão acostumados. Aguarde e confie.

Pois bem, ao voltar dos Correios após despachar uma encomenda, dei um pulinho na loja de doces para comprar umas pastilhas, crente que seria o único doce que eu experimentaria hoje. Chegando aqui no minha empresa, o zelador com sua finesse espartana me dá um enorme pacote pardo. Peguei o elevador e como eu desconhecia o remetente, fiquei imaginando quem poderia ser. No alto dos meus devaneios pensei se não era nenhum desafeto meu (tenho algum?!), me enviando um pacote bomba que, no melhor estilo Diário Popular, iria provocar a notícia que um jovem empresário havia sido vítima de bomba caseira. Aliás, eu fui, mas de bombas calóricas e seus doendes.

Com o devaneio morando no limbo, abro o pacote. Dou de cara com uma papel de seda branco, escrito “pratofundo” – neste momento me lembrei que aquela caixona era do meu amigo secreto twitteiro-crafteiro, promovido pela @adrianaoliveira.

Descobri com uma enorme felicidade e surpresa, que meu caríssimo amigo secreto era o senhor Vitor Hugo, do blog Prato Fundo (se você estiver lendo isso na hora do almoço, não entre no link. Aquele seu pratinho de arroz com feijão se tornará a coisa mais sem graça do mundo). E eu como um bom chocólatra e biscoitoido, me deparei com isso:

Vovólima observa, antes do ataque, a chocolatagem que recebi (sentido horário): cookies, mini-zumbi de papel, tloberone, docinhos da confeitaria Rafaelo, receita de bolo quádruplo de chocolate, um Corrupiola, uma barra de chocolata amargo (sob a cartinha feita a mano) e, sobre tudo isso, uma pano de prato que nunca será usado!

Vovólima observa, antes do ataque, a chocolatagem que recebi (sentido horário): cookies, mini-zumbi de papel, tloberone, docinhos da confeitaria Rafaelo, receita de bolo quádruplo de chocolate, um Corrupiola, uma barra de chocolata amargo (sob a cartinha feita a mano) e, sobre tudo isso, uma pano de prato que nunca será usado!

Por causa do meu tempo escasso, conversei muito pouco com o Sr. Prato Fundo, mas ao receber tudo isso dele, somado com a carta que ele fez (temos um humor escrachado super parecido – veja abaixo) senti que ganhei um grande amigo lá na parte sul do mapa. Agora deixe-me divagar sobre o assunto.

Escrito a mão: Coloca uma etiqueta que tio .faso nem vai perceber! /o/ (clique para ampliar)

Escrito a mão: "Coloca uma etiqueta que tio .faso nem vai perceber! /o/ (clique para ampliar)

Se não fosse pela internet e suas maravilhosas ferramentas, acredito que eu nunca teria cruzado (eão cruzei, atomicamente falando) o caminho do Sr. Prato Fundo. Por causa dessa ferramenta maravilhosa, muitas pessoas se relacionam e criam vínculos, mesmo que seja apenas se comunicando através de textos.

A internet permitiu que pessoas se expressem livremente, que o Vitor mantenha um blog sobre o que ele sabe fazer de melhor, assim como me permitiu viver de fazer bonecos. O próprio movimento craft só é possível por causa desse meio de comunicação. Deixe-me falar um pouquinho a mais sobre ele.

Por mais que na web conseguimos comprar qualquer tipo de produto industrializado, os produtos da artesanice contemporânea possuem algo único, que o @doisespressos sintetizou bem:

O verdadeiro diferencial do produto feito a mão não está propriamente no produto, mas na relação que o criador tem com ele e em como essa relação é apresentada a quem compra. (fonte)

Ver esse presente do amigo secreto, com todo carinho, cuidado e dedicação (e suor) me fez ver em mãos o que é consumir e viver do craft: fazer aquilo que se ama e te deixa feliz.

Espero sempre conseguir passar isso no que eu produzo.

Um super abraço e muito obrigado Sr. Prato Fundo,

tio .faso

A cor dos seus olhos

Quando era pequeno o meu melhor amigo era um menino loiro de olhos azuis. Vivíamos brincando e confabulando juntos. Às vezes ele era o rei e em outras era o plebeu. Polícia, ladrão. Herói e vilão. Ou era eu ou ele, não importando a ordem dos papéis.

Quando nós sentíamos fome, não víamos a hora de ir para o recreio saborear os nossos lanches. Geralmente era suco e um sanduíche de presunto e queijo. Em momentos especiais aleatórios, nossas mães nos presenteavam com refrigerante do almoço de domingo.

Em um evento da escola, todos os alunos da minha sala precisavam se fantasiar de animais. Ele era uma girafa amarela; nosso amigo gordinho era um elefante cinza e eu era um macaco marrom. Eu gostava de ser o macaco, pois podia atormentar os dois, afinal eu era o único ali que poderia subir em árvores ou mesmo rolar no chão.

Um momento para um suspiro. Sabe, de tudo aquilo que eu poderia me lembrar de nossa infância, o que mais me marcou foi um singelo acontecimento. Pela primeira vez vi que éramos diferentes. Que o mundo dele deveria ser totalmente diferente do meu. Eu o indaguei:

- Como é que você vê o mundo? Você vê que esse portão é marrom, que essa árvore tem folhas verdes e que essa pedra é cinza?

- Sim – ele retrucou e indagou o motivo.

- Quem bom! Por um momento pensei que você via o mundo de outra cor, pois achei que o seu olho azul não via as mesmas cores que os meus olhos castanhos.

Um grande abraço,

tio .faso

O autor é o rei!

Eu uma torrencial de twittadas sobre direito autoral com o @DoisEspressos, o cerne da discussão era o seguinte: se eu consumidor pago por um serviço de TV por Assinatura e a produtora de uma determinada série disponibiliza o conteúdo online e de graça, porque eu como pagante não posso baixar essa mesma série para ver quando eu quiser? – entre vários argumentos, a melhor resposta que eu poderia dar é a seguinte: o autor da série não te autorizou a fazer isso - por mais bizarro que pareça, essa é a verdade nua e crua.

Aqui no Brasil somos regidos pela Lei 9.610, a Lei de Direito Autoral, da qual destaco o seguinte:

Art. 22. Pertencem ao autor os direitos morais e patrimoniais sobre a obra que criou.

Art. 24. São direitos morais do autor:

I – o de reivindicar, a qualquer tempo, a autoria da obra;

II – o de ter seu nome, pseudônimo ou sinal convencional indicado ou anunciado, como sendo o do autor, na utilização de sua obra;

III – o de conservar a obra inédita;

IV – o de assegurar a integridade da obra, opondo-se a quaisquer modificações ou à prática de atos que, de qualquer forma, possam prejudicá-la ou atingi-lo, como autor, em sua reputação ou honra;

V – o de modificar a obra, antes ou depois de utilizada;

VI – o de retirar de circulação a obra ou de suspender qualquer forma de utilização já autorizada, quando a circulação ou utilização implicarem afronta à sua reputação e imagem;

VII – o de ter acesso a exemplar único e raro da obra, quando se encontre legitimamente em poder de outrem, para o fim de, por meio de processo fotográfico ou assemelhado, ou audiovisual, preservar sua memória, de forma que cause o menor inconveniente possível a seu detentor, que, em todo caso, será indenizado de qualquer dano ou prejuízo que lhe seja causado.

Tudo isso pode ser traduzido da seguinte forma: o autor é o rei, e sua palavra é a lei. Se ele fala que só um canal X poderá exibir sua série em um horário Y, qualquer coisa fora disso está proibido. Tenho que concordar com @DoisEspressos, pois isso parece ser errado e injusto, visto que ele como consumidor pagou para ver aquilo. É exatamente aqui que quero destacar três pontos:

1) A lei foi feita para proteger o autor das pessoas mal intencionadas

A lei só existe dessa forma porque há pessoas sem escrúpulos no mundo, querendo levar vantagem em tudo. Pessoas bem intencionadas como o amigo supracitado acabam encontrando uma rede (a lei) que o barra juntamente com todos os peixes podres. É como pescar sardinha com rede de arrasto e encontrar uma pobre tartaruga ou golfinho mortos.

Voltando, como há muitas pessoas querendo ganhar dinheiro com o que não é seu (leia-se “pirataria” e “contratos leoninos”) foi preciso criar uma lei que protegesse os indivíduos cujo o único meio de subsistência é a criação intelectual.

Como a Lei “teoricamente” não faz distinção, ela vale para todos. Se o autor disse é preciso ser obedecido.

2) Nós pagamos por partes e não pelo todo

A lógica do consumidor é a seguinte: se eu pago por algo, ele é meu e eu tenho direito divino e canônico sobre ela. É aqui que entra novamente a lei.

Se o autor só autorizou, p. e. , a venda de suas música através da mídia física CD, significa que nós não poderíamos pegar essas mesmas músicas e passá-las para mp3. Neste ponto o artista vê a possibilidade de gerar outros ganhos com músicas digitais. E isso nos leva ao terceiro item.

3) A distribuição

As pessoas confundem distribuição com direito de uso (o direito de uso é aquilo que você ganha ao comprar um CD/DVD ou ticket de cinema). O autor quando fecha um contrato com uma gravadora ou produtora, ele define as formas como sua obra serão exibidas. No caso da TV a Cabo, o que você paga não é o valor da série em si, mas sim o direito de poder assistir TV com trocentos canais, mesmo que sua série favorita só passa em determinada horário. Foi assim que o autor fechou o contrato com a produtora que o fez com o canal e esse com a operadora de TV por assinatura.

Não existe almoço grátis

“Mas poxa, a série que eu pago para assistir tem de graça no site do canal – porque não posso baixar?” – simples: o autor fez um novo acordo com a emissora, só que para exibir sua série via streming. Mas é preciso pagar os direitos do autor, os direitos de imagens das pessoas que atuam na série, toda a produção envolvida – tudo isso tem um enorme custo que geralmente é pago através da publicidade.

Com o advento da internet, as propagandas não precisam mais ser fixas. Elas podem mudar de acordo com o que acontece. Se agora você assistir sua série via streaming e aparecer uma propaganda de sabão, mais tarde pode parecer uma propaganda de carro. Quando baixamos a série, isso não acontece mais e aquela pequena chance estatística de você clicar na propaganda para ver o seu conteúdo, deixa de existir e aquele dinheiro que vai entrar para pagar a conta da série nunca aparecerá. Agora multiplique isso por milhares ou milhões de pessoas e você perceberá o rombo que isso pode causar.

É preciso mudar a mentalidade

Como foi dito, toda esse proibição só existe por causa das pessoas mal intencionadas, mas concordo com as vozes que a legislação precisa mudar. Mas as relações comerciais também precisam. Por que lucrar por um álbum inteiro se eu posso comprar as músicas que eu desejo? Por que eu não posso comprar apenas um capítulo daquela série para ver no meu computador? Também é preciso para com a livre distribuição (leia-se “passar aquele mp3 legal para o seu amigo”) e com a mania de lucrar o máximo com tudo.

Ao invés das empresas quererem um retorno do seu investimento a longo prazo, elas poderiam se inspirar na Cauda Longa e ganhar sempre, mesmo que seja R$1 por vez.

Nós consumidores também precisamos estar cientes que não é por que pagamos por algo, que temos direito sobre ele. Precisamos parar com as desculpas de “se algo não foi lançado aqui para eu comprar, vou baixar de graça”. Há anos que queria um cd de uma banda, só que aqui ele custava muito, mas muito caro para o meu ex-bolso de estudante. Eu esperei até poder comprar lá fora.

E nós autores também precisamos rever um pouco os nossos conceitos sobre monetização e distribuição de conteúdo. Se existe algo maravilhoso atualmente é a facilidade de alcançarmos o mundo a um clic de distância.

Não há uma solução simples pra resolver tudo de uma só vez. É preciso tomar diversas iniciativas. Precisamos respeitar as leis, mas elas precisam ser atualizadas, assim como toda a relação comercial e distributiva de quem criar e quem consome.

Um super abraço,

tio .faso

Sob o efeito da nuvem

Em uma conversa com minha sócia, no finalzinho da tarde de domingo, ela me confessa que estava preocupada com tanta coisa para ser feita e melhorada na empresa. Tasco-lhe uma pergunta: “Você passa quase o tempo todo pensando na empresa?” – ela responde positivamente e eu retruco: “Parabéns! Você já está sobre o efeito da nuvem!!”

Diferentemente do que possa parecer, “estar sob o efeito da nuvem” não tem nada haver com computação distribuída ou aplicativos que rodam via web. Essa nuvem é algo antigo, que muitos cartuns retratam muito bem.

Quem se lembra de alguma cena em que o personagem é perseguido por uma nuvem cinza, que chove apenas sobre sua cabeça? Estar sob o efeito da nuvem, no mundo dos empreendimentos, é basicamente isso.

Todo mundo tem suas pequenas nuvens: contas a pagar, filhos para cuidar e outro diversos problemas para sanar, mas quando você vira empresário, a nuvem tem um gosto todo especial.

Pense no seguinte: desde pequenos fomos condicionados e criados para sermos empregados de alguém. Ninguém nos treina para gerir nossas próprias idéias. E quando trabalhamos, volta e meia reclamamos dos nosso chefes, do nosso salário e de tudo mais que envolve ter aquela carteirinha azul de papel. Mas quando estamos do outro lado do balcão, a coisa muda de figura.

Quando damos esse passo -gerir uma empresa-, sentimos um peso enorme, um medo e um frio na barriga que antes não existiam. Nos vemos nús diante de um mundo que sempre nos oprimiu (ou você acha que consumir é o que? é uma forma de opressão socialmente aceita). Pela primeira vez em nossas vidas vemos que ganhar dinheiro é relativamente fácil, mas trabalhar para que isso ocorra envolve muitas variáveis que antes desconhecíamos: impostos, contratos, relacionamentos, consumidores, fruidores, gestão de marca e empresa, etc. . Tudo isso sempre existiu de forma mágica, como a comida na geladeira na casa de nossos pais.

Mas adianto que não é ruim estar com essa nuvem pairando nossos cucurocos, aliás é o batismo secreto de todo empresário, afinal é aqui que os sonhos se separam do limite do seu holerit.

Abraços,

tio .faso

Nem todo gringolês é ruim

Tenho que confessar que sou chato. Sim, sou muito chato. Não estou me referindo a aquele tipo de chatisse de quem acorda de manhã com a mão em riste, esperando para nocautear emocionalmente o primeiro que der “bom dia!”. Sou um chato verde-amarelo, um chato nacionalista.

Sou o tipo de pessoa que tem uma bandeira do Brasil pendurada sobre a porta da empresa. Adoro o meu país, seu povo (exceto pelas maçãs podres), sua características e cultura. Sou o tipo que adora apoiar a indústria nacional, comprando produtos feitos nessa terrinha (ainda sonho poder comprar um carro de uma marca 100% brasileira) e que não pensa duas vezes em apontar os defeitos que existem aqui; em suma: não sou nacionalista de copa¹ Mas uma das coisas que eu amo demais é a nossa doce língua portuguesa (pt_br para os íntimos).

Apesar de não lembrar o motivo de metade das regras do nosso idioma, eu acredito que faço bom uso dele. O português é uma língua tão rica que acho estranho usar termos estrangeiros ou neologismos. São tão cri-cri com o último caso que, se alguém gritar perto de mim “quem nunca disse ‘customização‘ que atire a primeira pedra!”, corre o sério risco de receber com um naco de paralelepípedo na testa. Mas o gordinho interior (vulgo “minha consciência”) diz: “Você é um designer!! – explica isso!!!”. É exatamente aqui que eu queria chegar.

O profissional de design, o designer é a versão inglês do “desenhista industrial”. Só que eu mesmo não sabia disso quando era mais novo e fui fazer uma faculdade de design. A carga informacional que essa palavrinha possui é muito forte, pois explica muita coisa apenas usando um termo. Nossos amigos latinos possuem um outro termo para definir design: diseño – e por mais que esse falso cognato aparente, diseño é diferente de dibujo (desenhar). A partir dessa raiz latina, poderíamos transformar o designer em desenhador, acabando com o problema do uso de palavras extrangeiras. Mas a realidade é diferente.

Há um bom tempo foi aberta uma discussão no fórum do Superziper, na qual foi questionado um termo simples que diferenciasse os artesãos contemporâneos (os crafters) dos artesãos “de raiz”. Esse primeiro termo -crafter- foi cunhado pelas meninas do Superziper, derivando do termo inglês craft, que resumidamente significa “trabalhos manuais”. É um neologismo que até agora eu evitava de escrever.

Ao dar aula de informática para as minhas alunas da 3ª idade, acabei percebendo que existe uma enorme diferença no uso da linguagem de quem teve sua educação antes e depois do computador, principalmente impulsionada pelo uso da internet. Nós que vivemos nesse mundinho digital, vivemos o mundo em um instante. Somos cidadãos da Babel virtual – para nós é natural incorporar neologismos ao nosso vocabulário. É aqui que eu percebi a importância de ser um crafter.

Ser crafter não é apenas realizar artesanices. É uma nova forma de pensar o trabalho, as relações com o mundo e consigo mesmo. Ser crafter é aliar a tradição com a modernidade – os bits com os bytes. Craftar é ir além mundo.

Vou deixar um pouco os meus preconceitos de lado, afinal nem todo gringolês é ruim se sua mente é aberta e irrestritiva.

Um super abraço,

tio .faso

¹ Nacionalista de Copa: pessoas que passam o ano todo reclamando do Brasil, que sonham morar no exterior e ver o mundo em dólares/euros, mas que a cada quatro anos enche o peito de orgulho ao vestir a camiseta canarinho, dizendo-se patriota.

Copiar pra que?

Um dos grandes dons que nós temos é a criatividade. É com ela que conseguimos fazer coisas únicas que nos deixam com tanto orgulho e que merecidamente levam conquistar a admiração alheia.

Criar é algo tão gostoso, tão íntimo. É ver materializada a sua capacidade cognitiva; descobrir que o inimaginável se torna possível. É por tudo isso e muito mais que eu não entendo as cópias. Aqui vale uma pausa.

No mundo existem as cópias e a inspiração. O que difere a segunda da primeira é que a inspiração é aquela faísca que cai sobre a lenha bruta e seca, acendendo-a.

Quando eu era pequeno (9-10 anos) “comecei a desenhar”. As aspas são para indicar que eu não desenhava, mas sim inspirava. Via um desenho da Disney, colocava uma folha em branco do lado e tentava imitar o que via. Fiz isso por um bom tempo até que a faísca caiu no lugar certo e eu comecei a tentar criar os meus próprios desenhos, fazendo coisas novas que a minhas inspirações não possuíam. Hoje o meu lápis tem vida própria e faz o que quer.

Voltando ao começo do texto, são por esses motivos supracitados que eu não entendo a cópia, principalmente de produtos artesanais (o “craft”). Por que copiar algo se você simplesmente pode criar? Não é muito mais gostoso saber que aquilo que você fez é único, com temperinho de dedicação salpicada por amor?

A vida é uma só. Por que gastar tempo e dinheiro em algo que, em suma, não é seu?

Um conselho: Não use guarda-chuva dentro de casa.

Um super abraço,

tio .faso

Inspirações: Dois Espressos e Corrupiola.

Idéias sob cárcere privado

“[...] Com medo de que roubassem sua ideia, ele a escondeu em um quarto do sono no castelo, trancou a porta e guardou a chave em grossa corrente de ouro em volta do pescoço. Quando estava mais velho e deixou o trono, foi correndo abrir a porta para rever sua ideia. Mas o rei de agora não era o rei menino, apaixonado e cheio de sonhos. Ele cresceu, ele viveu uma vida que não queria viver, e agora, o rei ancião não via mais tanta graça na ideia azul, linda ideia menina que estava para sempre o esperando. Não queria mais brincar com ela, nem correr pelos jardins. Então ele chorou as duas últimas lágrimas, que havia guardado para a maior tristeza… e trancou a porta para sempre.” (Martinas Viegas)

O texto acima é um pedacinho de uma mensagem intitulada “Quando as idéias são azuis” que a Martina Viegas enviou para o pessoal do Corrupiola. O final da estória me lembrou um outro texto do grande mestre Montalvo Machado, o “Gastando como se não houvesse amanhã”, onde ele levanta a bandeira que não devemos ter medo de gastar materiais, que devemos deixar nossa criatividade jorrar como as águas de uma enorme cachoeira.

Uma coisa muito usual é termos medo de expor nossas idéias ao mundo (torná-las públicas). Um dos argumentos mais corriqueiros é o temor de ter “sua grande idéia” roubada. Isso é uma falácia, pois como uma idéia pode ser grande se ela nem sequer saiu de casa? Não nego que idéias são bens valiosos, mas se ela não é implementada ela não passa de uma… idéia.

Se uma criança tem pais que não a deixam sair sozinhas para conhecer o mundo, ela nunca descobrirá as N possibilidades que a vida oferece e nem a sociedade terá a oportunidade de ver aquele baixinho com um ar de inspiração. É preciso dar a cara a tapa para ver a realidade.

Nunca tenha medo de jogar suas crias ao mundo. Ouse. Gaste sua criatividade como se não houvesse amanhã, assim sua grande idéia azul nunca ficará velha e opaca.

Um super abraço,

tio .faso

Ser lobo solitário é mais fácil na ficção

Hoje eu resolvi comprar uma edição da Pequenas Empresas – Grandes Negócios para ler uma matéria sobre controle de caixa e aumento da lucratividade. Sempre digo que revistas -e livros- como essa são os manuais de Auto Ajuda de Empresas. Se pessoas físicas lêem “O Segredo” (nunca li e fugi quando alugaram o DVD, diga-se de passagem), empresas buscas esses compêndios para buscar inspiração e continuar a fazer o mesmo de sempre.

Bem, voltando ao início, sempre que eu leio esse tipo de material eu fico um pouco agoniado. Minha agonia se origina pelo fato da realidade cair em meu colo para me relembrar que eu tenho muito, mas muito o que fazer. Deixe eu mostrar uma rápida lista das coisas que eu faço:

  • Bordo, costuro, monto e finalizo bonecos e suas vestes;
  • Ilustro os bonecos a serem produzidos;
  • Produzo o design de superfície das caixas, faço papéis de carta e monto certidões de nascimento;
  • Embalo e despacho encomendas;
  • Compro insumos;
  • Desenvolvo todas as tecnologias e design da presença web do .marcamaria;
  • Atendo clientes;
  • Gero boletos, pago contas, verifico pagamentos e cia.;
  • Todo sábado eu limpo as instalações do .marcamaria e cuido da manutenção do mesmo;
  • Faço as relações públicas (lê-se “apareço em eventos”) em nome da empresa; e não menos importante
  • A administro (crio produtos, viabilizo, faço negócios e parcerias, cia.).

Observando a lista acima, percebe-se claramente que eu estou com um sério acúmulo de funções. Isso prejudica a empresa. Outra coisa que me deixa super agoniado é que para cada item que eu realizo nessa lista, o restante fica a espera. Traduzindo: se eu faço um software, não há ninguém costurando um boneco. Isso gera muitos atrasos e perdas financeiras e de relacionamento com cliente.

Você pode pensar que uma forma de eu resolver isso, seria contratar mão de obra. Na mesma hora eu me lembro do capital, o qual é escasso, pois foi devorado durante o tempo em que fiquei cuidando de minha mãe. Ah! A solução de automatizar processos é algo paliativo, pois eu ainda só teria as 24h do meu dia (quanto mais pessoas trabalham juntas, mais horas tem o seu dia. Exemplo: 10 funcionários trabalhando por 8h = um dia de 80h trabalhadas). Uma última alternativa poderia ser encontrar um sócio.

Teoricamente, um sócio é uma pessoa que vai trazer menos gastos para empresa e mais lucratividade. Afinal -metaforicamente falando- ele não precisa receber um salário assim… todo santo mês desde que começa a trabalhar. Ele está ali ao seu lado para colher os resultados futuros e, para isso, é preciso que ele tenha um aporte para pode se manter por um determinado tempo. Vou me usar como exemplo:

Ao escolher uma nova sede para o .marcamaria, optei por ficar perto de casa, pois eu economizaria em passagem, tempo de translado e alimentação. Assim posso aproveitar as minhas 12h de trabalho ao máximo. Além disso, eu não recebo salário (por enquanto), pois tudo que recebo eu reinvisto na empresa. É claro, quando a bichinha começar a andar com as próprias pernas, eu serei o primeiro a assinar o meu contra-cheque. Descobrir um sócio com o qual eu tenha afinidade, que me complemente e que aceite trabalhar nessas condições é algo difícil de se achar.

Como ainda não achei, vou ter que continuar batalhando como lobo solitário, carregando minha espada e uma mochila enorme, carregada com tudo o que eu preciso para continuar minha jornada.

Um super abraço,

tio .faso

tio .faso 3x4