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home > arquivo > novembro de 2009

Um mundo digital mais humano

Antes de iniciar peço licença para os meus nove leitores, mas preciso relatar aqui algo pessoal. Calma! Prometo que irei transformar esse texto em uma divagação que você já estão acostumados. Aguarde e confie.

Pois bem, ao voltar dos Correios após despachar uma encomenda, dei um pulinho na loja de doces para comprar umas pastilhas, crente que seria o único doce que eu experimentaria hoje. Chegando aqui no minha empresa, o zelador com sua finesse espartana me dá um enorme pacote pardo. Peguei o elevador e como eu desconhecia o remetente, fiquei imaginando quem poderia ser. No alto dos meus devaneios pensei se não era nenhum desafeto meu (tenho algum?!), me enviando um pacote bomba que, no melhor estilo Diário Popular, iria provocar a notícia que um jovem empresário havia sido vítima de bomba caseira. Aliás, eu fui, mas de bombas calóricas e seus doendes.

Com o devaneio morando no limbo, abro o pacote. Dou de cara com uma papel de seda branco, escrito “pratofundo” – neste momento me lembrei que aquela caixona era do meu amigo secreto twitteiro-crafteiro, promovido pela @adrianaoliveira.

Descobri com uma enorme felicidade e surpresa, que meu caríssimo amigo secreto era o senhor Vitor Hugo, do blog Prato Fundo (se você estiver lendo isso na hora do almoço, não entre no link. Aquele seu pratinho de arroz com feijão se tornará a coisa mais sem graça do mundo). E eu como um bom chocólatra e biscoitoido, me deparei com isso:

Vovólima observa, antes do ataque, a chocolatagem que recebi (sentido horário): cookies, mini-zumbi de papel, tloberone, docinhos da confeitaria Rafaelo, receita de bolo quádruplo de chocolate, um Corrupiola, uma barra de chocolata amargo (sob a cartinha feita a mano) e, sobre tudo isso, uma pano de prato que nunca será usado!

Vovólima observa, antes do ataque, a chocolatagem que recebi (sentido horário): cookies, mini-zumbi de papel, tloberone, docinhos da confeitaria Rafaelo, receita de bolo quádruplo de chocolate, um Corrupiola, uma barra de chocolata amargo (sob a cartinha feita a mano) e, sobre tudo isso, uma pano de prato que nunca será usado!

Por causa do meu tempo escasso, conversei muito pouco com o Sr. Prato Fundo, mas ao receber tudo isso dele, somado com a carta que ele fez (temos um humor escrachado super parecido – veja abaixo) senti que ganhei um grande amigo lá na parte sul do mapa. Agora deixe-me divagar sobre o assunto.

Escrito a mão: Coloca uma etiqueta que tio .faso nem vai perceber! /o/ (clique para ampliar)

Escrito a mão: "Coloca uma etiqueta que tio .faso nem vai perceber! /o/ (clique para ampliar)

Se não fosse pela internet e suas maravilhosas ferramentas, acredito que eu nunca teria cruzado (eão cruzei, atomicamente falando) o caminho do Sr. Prato Fundo. Por causa dessa ferramenta maravilhosa, muitas pessoas se relacionam e criam vínculos, mesmo que seja apenas se comunicando através de textos.

A internet permitiu que pessoas se expressem livremente, que o Vitor mantenha um blog sobre o que ele sabe fazer de melhor, assim como me permitiu viver de fazer bonecos. O próprio movimento craft só é possível por causa desse meio de comunicação. Deixe-me falar um pouquinho a mais sobre ele.

Por mais que na web conseguimos comprar qualquer tipo de produto industrializado, os produtos da artesanice contemporânea possuem algo único, que o @doisespressos sintetizou bem:

O verdadeiro diferencial do produto feito a mão não está propriamente no produto, mas na relação que o criador tem com ele e em como essa relação é apresentada a quem compra. (fonte)

Ver esse presente do amigo secreto, com todo carinho, cuidado e dedicação (e suor) me fez ver em mãos o que é consumir e viver do craft: fazer aquilo que se ama e te deixa feliz.

Espero sempre conseguir passar isso no que eu produzo.

Um super abraço e muito obrigado Sr. Prato Fundo,

tio .faso

Nem todo gringolês é ruim

Tenho que confessar que sou chato. Sim, sou muito chato. Não estou me referindo a aquele tipo de chatisse de quem acorda de manhã com a mão em riste, esperando para nocautear emocionalmente o primeiro que der “bom dia!”. Sou um chato verde-amarelo, um chato nacionalista.

Sou o tipo de pessoa que tem uma bandeira do Brasil pendurada sobre a porta da empresa. Adoro o meu país, seu povo (exceto pelas maçãs podres), sua características e cultura. Sou o tipo que adora apoiar a indústria nacional, comprando produtos feitos nessa terrinha (ainda sonho poder comprar um carro de uma marca 100% brasileira) e que não pensa duas vezes em apontar os defeitos que existem aqui; em suma: não sou nacionalista de copa¹ Mas uma das coisas que eu amo demais é a nossa doce língua portuguesa (pt_br para os íntimos).

Apesar de não lembrar o motivo de metade das regras do nosso idioma, eu acredito que faço bom uso dele. O português é uma língua tão rica que acho estranho usar termos estrangeiros ou neologismos. São tão cri-cri com o último caso que, se alguém gritar perto de mim “quem nunca disse ‘customização‘ que atire a primeira pedra!”, corre o sério risco de receber com um naco de paralelepípedo na testa. Mas o gordinho interior (vulgo “minha consciência”) diz: “Você é um designer!! – explica isso!!!”. É exatamente aqui que eu queria chegar.

O profissional de design, o designer é a versão inglês do “desenhista industrial”. Só que eu mesmo não sabia disso quando era mais novo e fui fazer uma faculdade de design. A carga informacional que essa palavrinha possui é muito forte, pois explica muita coisa apenas usando um termo. Nossos amigos latinos possuem um outro termo para definir design: diseño – e por mais que esse falso cognato aparente, diseño é diferente de dibujo (desenhar). A partir dessa raiz latina, poderíamos transformar o designer em desenhador, acabando com o problema do uso de palavras extrangeiras. Mas a realidade é diferente.

Há um bom tempo foi aberta uma discussão no fórum do Superziper, na qual foi questionado um termo simples que diferenciasse os artesãos contemporâneos (os crafters) dos artesãos “de raiz”. Esse primeiro termo -crafter- foi cunhado pelas meninas do Superziper, derivando do termo inglês craft, que resumidamente significa “trabalhos manuais”. É um neologismo que até agora eu evitava de escrever.

Ao dar aula de informática para as minhas alunas da 3ª idade, acabei percebendo que existe uma enorme diferença no uso da linguagem de quem teve sua educação antes e depois do computador, principalmente impulsionada pelo uso da internet. Nós que vivemos nesse mundinho digital, vivemos o mundo em um instante. Somos cidadãos da Babel virtual – para nós é natural incorporar neologismos ao nosso vocabulário. É aqui que eu percebi a importância de ser um crafter.

Ser crafter não é apenas realizar artesanices. É uma nova forma de pensar o trabalho, as relações com o mundo e consigo mesmo. Ser crafter é aliar a tradição com a modernidade – os bits com os bytes. Craftar é ir além mundo.

Vou deixar um pouco os meus preconceitos de lado, afinal nem todo gringolês é ruim se sua mente é aberta e irrestritiva.

Um super abraço,

tio .faso

¹ Nacionalista de Copa: pessoas que passam o ano todo reclamando do Brasil, que sonham morar no exterior e ver o mundo em dólares/euros, mas que a cada quatro anos enche o peito de orgulho ao vestir a camiseta canarinho, dizendo-se patriota.

tio .faso 3x4